19 Set 2019

Medidas ortodoxas já não bastam para mover a economia

Por   Qui, 01-Ago-2019

A redução dos juros em meio ponto percentual, para 6% ao ano, é uma tentativa do Comitê de Politica Monetária do Banco Central de colaborar com a retomada da economia, que continua sem dar sinais palpáveis de reação. Mais que baratear empréstimos, o governo pretende tirar os empresários e investidores da zona de conforto - o dinheiro aplicado no banco - para voltar aos negócios, o único fator capaz de reconduzir o país ao desenvolvimento. O mesmo fenômeno ocorre nos Estados Unidos, onde o Federal Reserve também acaba de baixar os juros. Ocorre que a saída do marasmo não está sendo fácil - e a queda dos juros, assim como outras medidas econômicas ortodoxas, também não deve ser o bastante.

O Copom reduziu os juros após um ano e quatro meses, período durante o qual as equipes econômicas do governo Temer, e agora a do presidente Jair Bolsonaro, aguardaram uma reação espontânea, que não veio. "O cenário do Copom supõe que essa retomada ocorrerá em ritmo gradual", afirmou o BC, em nota à imprensa. "O cenário externo mostra-se benigno, em decorrência das mudanças de política monetária nas principais economias."

O próprio BC, porém, alertou que "os riscos associados a uma desaceleração da economia global permanecem". No quadro interno, as incertezas geradas pelo comportamento do presidente Bolsonaro, no seu enfrentamento quase diário com diversos setores da sociedade, tira o ambiente de tranquilidade esperado pelos investidores.

A inflação continua dentro das expectativas - a projeção para o ano é de 3,6%, abaixo da meta do governo, de 4,25%. Ainda assim, esse controle reflete menos uma menor pressão de custos que a estagnação econômica, refreadora natural da demanda."O Brasil está entrando em uma armadilha clássica provocada pela fraqueza estrutural da demanda total, provocada pela combinação de um desemprego elevadíssimo, de um corte nos investimentos públicos e um hiato do PIB que inviabiliza os investimentos privados", escreveu no Twitter o ex-presidente do BNDES, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros.

"Vagabundos"

No empresariado, há um discurso correntemente otimista, não em relação a Bolsonaro, mas à equipe econômica. Mesmo esta, porém, começa a receber críticas, apesar das promessas do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que tudo vai melhorar.

Nos últimos dias, com a ajuda da tropa digital do presidente, circulou pelo WhatsApp o vídeo de um discurso de Guedes, no qual o ministro mimetiza a fala grossa de Bolsonaro, chamando os críticos do governo de "vagabundos" e mandando-os "ir trabalhar".

Pode funcionar como discurso nas hostes do bolsonarismo, mas, no que diz respeito às medidas concretas para ressuscitar a economia brasileira, a fala de Guedes acaba dando razão ao empresariado que ainda não tirou o dinheiro do bolso para investir. No vídeo, Guedes afirma que pretende represar os preços da energia, o que, segundo ele, bastaria para reativar os investimentos e o crescimento.

Além de contrariar o perfil do próprio ministro como um homem de mercado, a ideia de simplesmente subsidiar a indústria com um corte nos preços da energia é um simplismo distante de um plano eficaz de reindustrialização. O Brasil hoje possui problemas econômicos mais profundos. A indústria nacional, sobretudo, perdeu competitividade frente ao produto externo e encontra dificuldade em lidar com as mudanças disruptivas do mercado tecnológico global.

Queda em dominó

Essa mudança de fase na própria história do capitalismo tem tirado o sono de governos ao redor de todo o mundo. O avanço das empresas digitais transnacionais tem levado a uma queda em dominó de indústrias, empresas de varejo, transporte e comunicação ao redor do globo. Mais: é hoje a maior fonte geradora de concentração de renda. Gera-se riqueza, mas ela vai cada vez mais para a mão de um número também gradativamente menor de agentes econômicos.

A reação dos governos ao empobrecimento geral da sociedade em meio à geração de uma nova riqueza tem sido a mesma de sempre, dentro do modelo tradicional de política econômica pública. A primeira primeira reação clássica dessa cadeia de ações é a de aumentar ou baixar os juros. 

Nos Estados Unidos, o Fed reduziu as taxas de juros em um quarto de ponto, deixando-as numa faixa entre 2% e 2,25%. Com isso, procura enviar o dinheiro da remuneração fixa para o capital de risco - o mercado. A medida foi encarada como um ajuste preventivo para estimular a economia, no momento em que o presidente Donald Trump se lança numa guerra tarifária e a riqueza cresce, mas se concentra também nas mãos de poucos.

"[Tomamos essa medida] à luz das implicações da evolução mundial para o cenário econômico, bem como a baixa pressão inflacionária", disse o presidente do Fed, Jerome Powell.

O fato, porém, é que já não bastam as soluções clássicas para corrigir a rota de um mundo em que as políticas nacionais submergem diante da escalada da globalização digital. Nela, emergem fenômenos inéditos e disruptivos da velha ordem econômica, como a criação de moedas virtuais e novos modelos de venda, negócios e relações de trabalho, que interferem diretamente na renda. As mudanças sociais profundas, trazidas na esteira tecnológica, estão mudando a própria lógica do crescimento econômico e do capitalismo remoldado na era contemporânea.

"Hoje se percebe de um lado as ondas populistas de direita, que prometem entregar resultados [à sociedade] com um discurso conservador, protecionista e nacionalista, e de outro o crescimento do reformismo mais radical, com a desigualdade assumindo papel central da discussão econômica, acadêmica e política", disse Laura Carvalho, professora de Economia da USP, em recente seminário na Fundação FHC, em São Paulo. "Porém, é preciso uma coordenação para que as instituições multilaterais regulem o fenômeno de globalização financeira, que tem tirado a autonomia dos países para fazer sua própria política econômica."

É preciso ainda encontrar soluções também globais para outros desafios sem fronteiras, como a mudança nas relações do trabalho, que neutralizou os sindicatos, colocando o trabalhador de baixa qualificação no Brasil em concorrência direta com o chinês. E a desinformalização dos mercados, que entre outras coisas afeta a arrecadação do poder público, outra tendência flagrante do neo-capitalismo digital. "Estamos diante de uma transformação profunda do mundo, que já nada tem a ver com as definições do capitalismo, um conceito do Século XVII", disse o economista e sociológo Eduardo Gianetti, também presente ao seminário.

Isso indica que a saída para tirar os 12 milhões de brasileiros do desemprego não será fácil e implica não apenas no receituário liberal do governo, com corte de gastos, reforma tributária ou outras medidas dentro dos parâmetros da velha economia de mercado. Requer também visão estratégica da economia mundial e da sociedade, de forma a se poder construir um país capaz de subsistir a uma nova realidade.