19 Set 2019

Bolsonaro queima Cintra e chamusca Guedes

  Qui, 12-Set-2019
Cintra: sacrificado no lugar do chefe Cintra: sacrificado no lugar do chefe

O presidente Jair Bolsonaro mandou demitir o secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, por conta dos estudos sobre a recriação do imposto sobre operações financeiras, nos moldes da antiga CPMF. Bolsonaro sempre se declarou contra aumentos de impostos, até porque são pouco eficazes - aumentam a receita do governo no primeiro  instante, mas são recessivos e acabam reprimindo a economia e também a arrecadação, num buraco sem fundo.

Assim, Bolsonro, que já não vinha gostando da fiscalização da Receita sobre figuras de proa da República, incluindo as próximas dele, queimou Cintra. E acabou chamuscando o chefe do secretário, o ministro da Economia, Paulo Guedes, que já vinha anunciando a criação do novo imposto - chegou a dar uma entrevista ao jornal Valor Econômico, dizendo que a alíquota chegaria em alguns casos a 1%.

Dessa forma, Cintra acabou sacrificado no lugar do chefe, que nem por isso saiu ileso. Assim como já aconteceu com o ministro da Justiça, Sérgio Moro, atropelado na escolha do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Guedes já teve farta demonstração de que Bolsonaro não tolera iniciativas que o desagradem ou contrariem a orientação geral do governo. Mesmo de seus ministros mais importantes - a quem tinha prometido "carta branca" .

"Tentativa de recriar CPMF derruba chefe da Receita", escreveu Bolsonaro em seu Twitter, usando, enfaticamente, letras maiúsculas. "Paulo Guedes exonerou, a pedido, o chefe da Receita Federal por divergências no projeto da reforma tributária. A recriação da CPMF ou aumento da carga tributária estão fora da reforma tributária por determinação do Presidente."

A notícia da recriação da CPMF, ventilada pelo próprio Guedes, acabou provocando fortes reações em todos os setores. "Os brasileiros já pagam muitos impostos e encargos, e eles não aguentam mais", disse o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que votou pela extinção do imposto em 2007. "Muito difícil", disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, sobre a possibilidade de uma medida desse gênero ser aprovada no Congresso.

Derrota retumbante

Para Guedes, a demissão de Cintra acabou sendo como o sacrifício de um bispo para não entregar a rainha - no caso, ele mesmo. Salvou-se, mas não pegou bem. "Guedes deixa os seus na estrada", escreveu a revisa Época.

Em artigo publicado no site, a revista lembrou também a queda do presidente do BNDES, Joaquim Levy, também uma derrota retumbante, mas silenciosa de Guedes. "Em ambos os casos, Guedes não se articulou para defender seus subordinados da artilharia vinda do Planalto", afirmou. "Deixou-os sozinhos na trincheira e lavou as mãos."

No caso de Cintra, Bolsonaro saiu ganhando e também perdendo. Por um lado, ganhou ao cortar uma ideia notoriamente inócua e inoportuna, mantendo a fidelidade às suas propostas e promessas. Além, é claro, de economizar a criação de mais um problema ao país.

Perdeu, porém, pela maneira como as coisas mais uma vez aconteceram no seu governo. Ao ter que intervir nos escalões menores dos ministérios, mostra que os ministros não tomam as iniciativas da forma que ele gostaria.

Como gestor, o presidente deixa, ainda, um permanente clima de insegurança sobre quem pode ser o próximo a ter a cabeça cortada. Num cenário em que os ministros já parecem carentes de novas soluções para tirar o país da estagnação e do desemprego, viver com uma espada sobre a cabeça é um inibidor ainda maior para a criatividade.