18 Out 2021

Guedes é garantido, mas há obstáculos

Por   Seg, 27-Abr-2020
Guedes: destoando Guedes: destoando

No comitê de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, na sexta-feira passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi uma figura destoante do conjunto - enquanto todos os ministros vestiam-se formalmente, ele estava sem paletó, com uma máscara anti-Covid, e sem sapatos, inidcação de que os teria deixado por norma sanitária na porta. A imagem sugeria um ministro já deslocado, ou, por outro ângulo, o único certo. Nesta segunda-feira, após reunião com Guedes, o presidente Jair Bolsonaro diz que ele fica no governo"O homem que decide economia no Brasil é um só, chama-se Paulo Guedes", disse o presidente, após encontro no Palácio da Alvorada. "Ele nos dá o norte, nos dá as recomendações e o que nós realmente devemos seguir."

Sim, Guedes fica. Mas, no governo Bolsonaro, a questão é saber até quando - e como.

Ninguém tem dúvida, a começar pelo próprio Guedes, de que seu projeto original já não vinha dando os resultados esperados, e foi estragado de vez com a pandemia do vírus corona, que obrigou o govenro a abrir os cofres e pedir mais dinheiro ao Congresso. Por conta dessa conjuntura, Bolsonaro teve de apelar ao apoio do Centrão, de forma a viabilizar a aprovação das Medidas Provisórias que pedem recursos para as verbas de socorro na pandemia.

Somente na sexta-feira, seguiu à Câmara uma MP pedindo um crédito esxtraordinário de 25,7 bilhões de reais em favor do Ministério da Cidadania, de modo a permitir o pagamento do auxílio emergencial de 600 reais aos beneficiários cadastrados.

Guedes arquitetou um novo projeto, mediante o qual os bancos privados receberiam incentivos para emprestar dinheiro aos necessitados. A ala militar do Planalto, tendo à frente o ministro da Casa Civil, Braga Netto, tomou a iniciativa e apresentou na semana passada um projeto chamado de Pró-Brasil, por meio do qual o governo federal mais que dobraria os investimentos em infra-estrutura até 2022 para colaborar na retomada do emprego.

O ministro da Economia disse a Bolsonaro e ao próprop Braga que o Pró-Brasil não sairá do papel - pelo menos, da forma como Braga o apresentou,  ao estilo desenvolvimentista típico dos militares.

"Naturalmente, o presidente já está olhando para o futuro e nos pediu, a todos, estudos", disse Guedes. A função do general Braga Netto é coletar estudos, porque ele é um coordenador das ações. Ele coordena as ações e a conta vem para a Economia."

Guedes disse que a política econômica "segue, é a mesma." "Vamos prosseguir com nossas reformas estruturantes", disse. "Vamos trazer bilhões em investimento em saneamento e infraestrutura, com reforço na safra, a logística está funcionando e o presidente está coordenando isso".

O ministro tem criticado sobretudo o ministro do desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, que estaria fazendo planos junto com os militares de obras ao custo de 185 bilhões de reais até 2024.

Obstáculos

Apesar do discurso do ministro, há alguns e grandes obstáculos. A crise é mundial e todos os governos do mundo inteiro buscam neste momento recursos, o que torna pouco provável a internação de "bilhões" no Brasil a curto e médio prazo.

"O programa Pró-Brasil, na verdade, são estudos na área de infraestrutura, de construção civil", afirmou o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. "São estudos adicionais para ajudar nesta arrancada de crescimento que vamos fazer. Agora, isso vai ser feito dentro dos programas de recuperação de estabilidade fiscal nossa. Não queremos virar a Argentina, não queremos virar a Venezuela. Estamos em outro caminho, no caminho da prosperidade, não no caminho do desespero."

O presidente do banco Central, Roberto Campos Neto, reforçou a necessidade de manutenção do equilíbrio fiscal. "É a disciplina fiscal que vai nos manter em curso, que vai fazer com que o país consiga viver com juros baixos e inflação controlada", disse.

Há não apenas uma clara divisão dentro do governo sobre o que fazer, como um questionamento do modelo ultra-liberal de Guedes, não somente pelo desempenho econômico antes da pandemia, como pela mudança de perspectiva que ela cria.

Por enquanto, Bolsonaro se preocupa com uma certa estabilidade - e manter Guedes, ainda que o liberalismo se torne insustentável com o Covid-19. Porém, pode começar a sofrer a pressão de seus novos aliados do Centrão, oponentes não somente do ex-ministro Sérgio Moro, por tê-los perseguido com a Lava Jato, como do próprio Guedes, um empecilho na liberação de verbas.

Como o Centrão funciona na base da chantagem financeira, alinhando-se com o governo desde que receba benEfícios em moeda sonante, é provável que Guedes tenha de enfrentar a nova realidade, na qual se obriga a ceder a apelos para os quais antes era inexpugnável.

"Esse é o preço que Bolsonaro terá que pagar para quebrar o isolamento no Congresso", afirmou o colunista do UOL, Chico Alves. "por isso, o Plano Pró-Brasil, que Guedes rechaça, soou como música aos ouvidos do Centrão. A cogitada quebra do teto de gastos para permitir investimentos é outro enredo que agrada a esses parlamentares e desagrada profundamente ao ministro."

Ao sofrer a pressão de Bolsonaro para liberar informações sobre investigações da Polícia Federal, o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, preferiu sair para não descaracterizar-se. Resta saber quanto Guedes saberá também lidar com a pressão para fazer coisas contra suas próprias convicções. Entre as necessidades da política e a fidelidade aos ministros que eram as joias da coroa, Bolsonaro já mostrou, no caso de Moro, qual é sua opção.