19 Fev 2020

Ataque terrorista atinge a economia global

  Ter, 17-Set-2019
O alvo: repercussão mundial O alvo: repercussão mundial

O objetivo do terror é instaurar o pânico permanente e instaurar problemas - algo mais fácil numa economia global instabilizada e dependente de lugares escolhidos a dedo como alvo. É o caso das reservas de petróleo da Arábia Saudita, cuja produção foi 70% paralisada após o bombardeio de sábado. O preço internacional do petróleo disparou 13%. No Brasil, o governo decidiu segurar a alta, para não piorar ainda mais a estagnação econômica que sobrevive mesmo com o laissez faire do ministro Paulo Guedes. Porém, não sabe quanto tempo essa política vai resistir à crise.

Os principais alvos dos ataques aéreos, cuja autoria ainda não está bem determinada, foram a refinaria de Abqaiq e o campo de Khurais, um dos maiores do planeta. Fontes do governo árabe indicam que a restauração das instalações pode demorar meses.

"[Abqaiq] é de longe a instalação petroleira mais importante do mundo", afirmou Bob McNally, assessor de energia do ex-presidente americano George W. Bush. Pelo volume, e a relação estratégica com os Estados Unidos, o ataque aos campos sauditas soou como uma retaliação ao governo de Donald Trump, que resolveu usar a política do "big stick", com sanções econômicas ao regime iraniano. Agora, recai sobre os iranianos a principal suspeita da autoria do ataque terrorista - seriam fabricados lá os artefatos disparados sobre o território saudita.

Assessor de investidores na área de energia, McNally apontou a "vulnerabilidade sistêmica" pela dependência mundial dos campos petrolíferos sauditas. Sem eles, a produção global de petróleo cai em cerca de 7%. Mesmo o Brasil, que começa a contar com o petróleo do pré-sal, acaba sendo afetado, na medida em que é exportador e ao mesmo tempo importador do produto e reduziu ao longo das últimas décadas o consumo de álcool como combustível alternativo.

"Se você estiver organizando e monitorando uma lista de infraestrutura essencial de energia, Abqaiq estará bem no alto", disse McNally. De Abqaiq, ligada por oleodutos aos grandes campos sauditas, sai 70% do óleo refinado do país, bem como gases naturais como o propano e o butano. Os 30% restantes da produção são vendidos ao exterior como petróleo cru. Depois dos ataques, a Arábia Saudita deixou de produzir 5,7 milhões de barris diários de petróleo cru, além de 700 mil barris diários de gás natural liquefeito e gás natural consumido no próprio país.

Os ataques foram descritos como tendo sido realizados por drones, supostamente dirigidos remotamente por milícias houthi iemenitas apoiadas pelo Irã, conforme afirmou Trump, com base nos relatórios da inteligência americana. Imagens de satélites comerciais mostraram diversos depósitos circulares onde é separado o gás do petróleo cru atingidos pelos mísseis.

A estatal de petróleo saudita, a Saudi Aramco, é a empresa de grande porte mais lucrativa do planeta. Contudo, isso faz dela apenas um alvo cobiçado pelo terror. Não é a primeira vez Abqaiq foi atacada. A segurança foi reforçada em 2006, depois de um ataque da Al Qaeda, que no entanto não teve resultado.

Na década da 1970, aconteceu uma grande crise do petróleo, quando os membros da Opep, cartel que reunia os maiores produtores de petróleo do Oriente Médio, se uniram para pressionar o mercado internacional. O encarecimento e a dependência do petróleo fizeram o governo militar brasileiro a criar o Proálcool, um bem sucedido programa de produção de veículos movidos a álcool de cana, que se tornou um caso de sucesso como combustível alternativo relativamente econômico e menos poluente que o próprio petróleo.

Agora, de repente o mundo se vê diante do mesmo dilema de um sistema sob ameaça. Por sorte, ou talvez uma rara demonstração de sabedoria, que não deixa de ser sorte, o Brasil não desativou as bases do Proálcool. Como estratégia de segurança nacional, é sempre melhor não contar com os ovos de uma galinha só.