18 Set 2019

A verdadeira missão da direita conservadora

Por   Seg, 05-Ago-2019

Com seu estilo populista meio espalhafatoso e caricato, desenvolvido e exercido por meio das redes sociais, os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil vêm prestando um grande desserviço à sociedade.

Cada um no seu palácio, Trump e Bolsonaro transmitem a sensação de que a direita - como se convencionou chamar nos dias de hoje o movimento político conservador -  não passa de um amontoado de ações histriônicas, decisões bizarras e ataques gratuitos a inimigos imaginários. E, assim, tornam a direita tão fantasiosa e ridicula como a esquerda também caricata que anunciam confrontar.

Dessa forma, desmoralizam o que o conservadorismo poderia trazer de bom neste momento - ideias, que, levadas a sério, e não como uma mera encenação de marketing, poderiam colaborar de fato com soluções políticas e econômicas para os problemas contemporâneos, que não são poucos e nem fáceis.

A performance caricatural de Trump e de Bolsonaro, assim como seus escolhidos para o governo, faz parecer que conservadorismo é discutir se menino veste rosa ou azul ou se os hispânicos deveriam ou não voltar para casa.

Esse tipo de discussão, que é mais do moralismo que do conservadorismo, acaba deixando de lado os problemas de verdade. O mundo contemporâneo hoje é o cenário de uma inédita expansão de tecnologias que rompem fronteiras, mudam relações políticas, destroem bases econômicas e desestabilizam sedimentos sociais.

Um de seus mais graves efeitos é a concentração de riqueza - e a criação de uma massa de desempregados e marginalizados sem precedentes, em escala mundial.

Hoje, um punhado de multinacionais da tecnologia, assim como a recente abertura dos chineses para o mundo, vem tomando o lugar de empresas clássicas, derrubando o emprego e o salário, destruindo mercados e ameaçando de extinção os próprios Estados nacionais.

O surgimento de moedas virtuais, que funcionam como uma economia paralela à oficial, a quebra de barreiras alfandegárias e uma expansão que vai além dos limites de controle dos governos nacionais são os rastros destrutivos da ação de criaturas que nasceram para o bem, mas vão se transformando em monstros devoradores do planeta.

Como resposta, os eleitores do mundo inteiro se voltaram para políticos de natureza conservadora, por duas razões. Primeira, porque o crescimento da concentração de renda e o empobrecimento da base da pirâmide mostra que as políticas sociais falharam. E, segunda, a reação natural do eleitorado é de proteção dos mercados nacionais diante da ameaça externa, seja da China ou das corporações digitais: os dois pantagruéis que ameaçam o emprego e a renda.

Esse é o verdadeiro sentido político do conservadorismo: a proteção (ou conservação) de interesses locais, hoje uma reação em cadeia de sobrevivência contra a invasão estrangeiro-cibernética que deixa o mundo inteiro com preocupações econômicas imediatas e uma interrogação quanto ao futuro.

Os próprios líderes das companhias transnacionais sabem que o atual sistema é insustentável. Não há desenvolvimento nem para empresas como Google, Amazon e Facebook se elas destruírem o mercado - a capacidade das pessoas de comprar alguma coisa. A base de qualquer negócio é tirar os ovos de ouro, mas sem matar a galinha.

O mundo livre também não quer que o planeta se transforme numa grande China, cuja população em grande parte sobrevive graças a uma cultura única voltada para a resignação num regime autoritário.

O supra-sumo do pensamento conservador de direita no Brasil, Olavo de Carvalho, é um teorizador do problema dos avanço das organizações transnacionais. Considera que elas ficaram fora do alcance dos governos e passaram a apoderar-se do poder que antes era do Estado.

Olavo sustenta que o capitalismo digital contemporâneo é um novo comunismo, porque destrói as bases do capitalismo de mercado, colocando no seu lugar um novo centralismo econômico. Assim, o conservadorismo de Olavo, adotado por Bolsonaro, não é contra a esquerda, mas contra o sistema - a democracia liberal histórica que prometeu solucionar todos os problemas do mundo, depois da derrocada do comunismo soviético, e vem se transfomando numa hidra de lerna.

A solução vislumbrada por Olavo é surfar nas redes sociais para chegar ao poder, na onda da revolta contra o fracasso do Estado social. E fortalecer novamente o poder do Estado contra as corporações tecnocratas, usando dos próprios meios com as quais elas se supervitaminaram. No fim, é o mais pleno totalitarismo de Estado, da maneira como foi antevisto por George Orwell.

Em vez de disfarçar seu programa orwelliano, os conservadores deveriam estar discutindo fórmulas civilizadas para trazer progresso real, em vez de mais autoritarismo. Isso significa usar a tecnologia digital a favor do homem, conciliando a liberdade e as possibilidades da economia colaborativa da rede mundial para produzir progresso para todos, em vez de concentração de renda, miséria e algum tipo de novo totalitarismo.

Esse é o verdadeiro dilema do mundo contemporâneo: como fazer a tecnologia disruptiva inverter seu sentido destruidor , tirando o mundo de um destino fascistóide. E usar essa mesma tecnologia a favor da manutenção da liberdade, da identidade nacional, do emprego e da distribuição da riqueza de uma forma mais igual e sustentável para todos.

É possível, desde que as lideranças para olhar o que realmente importa, com espírito público, em vez da velha e ruinosa vaidade.