15 Set 2019
Thales Guaracy

Thales Guaracy

Foi editor de política e assuntos nacionais da revista Veja, editor executivo do Grupo Exame, editor sênior de O Estado de S. Paulo, diretor editorial e responsável pelo lançamento no Brasil da revista Forbes, entre outras publicações. Foi ainda diretor editorial da Saraiva para a publicação de livros de ficção e não ficção, criador do selo e do Prêmio Benvirá de Literatura. Ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo Político e de 12 prêmios Abril de Jornalismo, pertenceu ao corpo de jurados do Prêmio Esso de Jornalismo e do Prêmio Petrobras de Jornalismo.

Como autor, publicou livros de reportagem como O Sonho Brasileiro - Como Rolim Amaro Construiu a TAM e sua Filosofia de Negócios; A Conquista do Brasil: 1500-1600; A  Criação do Brasil: 1600-1700; e Eles Me Disseram – As ideias e valores de 21 brasileiros de sucesso, além de mais uma dezena de obras de ficção e não-ficção.

O mundo virtual facilitou espalhar notícias falsas, interesses de todos os tipos, disfarçados de interesses do bem comum, numa época que coincide com a falencia dos veículos de imprensa tradicionais, substituídos pela comunicação política, político-corporativa ou corporativista.

A construção de uma falsa realidade a partir de um grupo minoritário de interesses aproveita períodos de turbulência real para espalhar ideias absurdas, que, por alcançarem um grande número de pessoas pelos meios virtuais, podem parecer hegemônicas.

A crise do protesto dos caminhoneiros foi uma dessas oportunidades: deu margem aos aproveitadores para espalhar ideias e falsos acontecimentos, danosos ao país. Como o andamento de uma suposta intervenção militar, que chegou a contaminar os debates no Congresso Nacional, ou a deposição de Michel Temer.

O protesto está chegando ao fim, o abastecimento vem sendo normalizado, e é hora, agora, de rever realmente o país. Não para espalhar o caos, burlar as instituições e ameaçar a democracia, e sim para implantar um projeto construtivo de forma a recolocar o Brasil no caminho do desenvolvimento sustentado e da justiça social.

O presidente Michel Temer achava que estava tudo bem. Chegou até a ensaiar uma candidatura à presidência, achando que a economia estava voltando a crescer, a intervenção no Rio lhe daria popularidade e sairia dessa para a glória.

Achava.

Bastou o protesto dos caminhoneiros, que não querem sofrer mais a sangria produzida pelo governo no já sofrido povo brasileiro, para mostrar como é precária a estabilidade brasileira.

E acordou o governo de repente para a realidade de 13 milhões de desempregados e duas centenas de milhões de insatisfeitos, que clamam por mudanças. Nem estão reclamando dos agentes do caos, que criaram no seu rastro um clima de desordem, congestionamentos nas estradas, carestia galopante dos produtos em falta, a paralisação de serviços públicos como o transporte coletivo e o desabastecimento em geral. Ao contrário, dividem com os 2 milhões de trabalhadores das estradas o sentimento de que não é mais suficiente bater panelas para acordar e espantar os vampiros de Brasília. 

A Polícia federal, numa operação denominada Efeito Dominó, prendeu uma quadrilha de doleiros que trabalhava para as operações fraudulentas investigadas pela Lava Jato. Era encabeçada pelo "embaixador do tráfico", Luiz Carlos Rocha, o "Cabeça Branca", considerado chefe da organização, preso desde junho do ano passado.

Passados 20 anos da proclamação da Constituição Cidadã, sob a qual vivemos hoje, está  bem claro que chegou a hora de uma reforma, com a qual deviam se comprometer não apenas o próximo presidente como os parlamentares que formarão o Congresso Nacional.

O Conselho Monetário Nacional aprovou ontem medidas que limitam os juros do rotativo do cartão de crédito e acabam com o pagamento mínimo de 15% da fatura.

As operadoras não poderão mais cobrar juros maiores de clientes que estiverem no rotativo e ficarem inadimplentes ou pagarem menos que o mínimo da fatura.

Caberá às instituições definir um percentual mínimo de pagamento em cada fatura, de acordo com sua política de crédito e o perfil do cliente.

Passados vinte anos desde a criação da Constituição Cidadã, hoje em vigor, o Brasil dá sinais de que precisa revisar seu projeto de república democrática, com base na experiência dos erros e acertos no exercício do modelo desenhado desde 1984, na campanha das Diretas Já. Esse modelo, que visava deixar para trás os anos de ditadura militar e implantar no país um regime capaz de nos levar ao chamado primeiro mundo de cidadania e riqueza, precisa de reformas - já.

Um dos sintomas da desorientação dos velhos rumos escolhidos, e da necessidade de mudança, é o que aconteceu com os artífices restantes desse projeto que, no passado já não tão próximo, juntaram-se no mesmo palanque em nome da causa comum da reconstrução da democracia no Brasil.

Algo impensável antes para os mentores da chamada Nova República, os líderes oriundos daquela geração, alternantes no poder depois da retomada da democracia, encontram-se hoje em situação significativamente delicada. Luís Inácio Lula da Silva está na cadeia. Fernando Henrique Cardoso, à frente de um partido igualmente esfacelado por denúncias de corrupção, procura repensar o futuro - o do PSDB e o do país.

As mais recentes pesquisas de intenção de voto confirmam o já sabido, que é a sede do eleitorado brasileiro pelo "novo". Cansado da "velha política", desnudada pela operação Lava Jato, o eleitor brasileiro se divide hoje entre os militantes do PT, somados aos ainda numerosos saudosistas de Lula, para quem não importa a corrupção, desde que se receba aquele trocado, e aqueles que querem algo absolutamente diferente de tudo o que viram nos últimos anos - a gritante maioria.

A corrida eleitoral se mostra um lento e progressivo esvaziamento da fatia de Lula. E uma disputa feroz por tudo o que se encontra do outro lado. Nesse outro pedaço, a pesquisa do Datafolha trouxe à tona o crescimento de Marina Silva, a bordo de um partido que é praticamente só ela mesma, e Joaquim Barbosa, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal que presidiu o inquérito do Mensalão. E viu-se a manutenção do bloco de Jair Bolsonaro, outra candidato que, mesmo ideologicamente oposto aos anteriores, faz parte do mesmo movimento "contra tudo que está aí".

Todos têm certa cara de "novo". Marina é bem conhecida, mas nunca experimentou o poder de verdade, desde que saiu do PT, justamente por divergir das práticas que o partido, uma vez no governo, passou a adotar. Barbosa passa a imagem de magistrado que veio do povo pobre, negro, íntegro e duro na defesa de suas posições, como foi no comando do processo do mensalão. Bolsonaro é a defesa radical contra a corrupção, o aparelhamento do Estado pela esquerda e o resgate da extrema direita, que, graças ao comportamento do PT no poder, deixou de ter vergonha e saiu do armário.

Ao mesmo tempo em que acirrou a sede pelo novo, a Lava Jato lançou um dilema político. O novo é também, em certa dose, não provado, ou desconhecido. O problema com o novo é que ele não tem as nódoas do passado, mas diz pouco sobre o futuro. O Brasil quer o novo, mas carece também de certa previsibilidade. O país precisa de manutenção da rota de crescimento econômico e de garantias de estabilidade democrática. 

É dificíl ver isso no PT que, uma vez apeado no poder, voltou a ser o que era - o pequeno partido radical que prega a guerrilha política e questiona não a regra democrática como a  própria Justiça. É difícil ver democracia, também, no seu extremo oposto, Bolsonaro, um intolerante contumaz que no passado planejou um atentado a bomba e não tem medo de atacar publicamente tanto a regra democrática como as minorias das quais diverge.

Vamos imaginar se o Brasil estará no caminho da democracia e do desenvolvimento econômico na mãos dos novos emergentes. A ex-seringueira Marina  afirma em suas entrevistas que o Estado não pode continuar como motor da economia, mas veio das hostes do PT e seu partido é quase invisível no Congresso, o que pode levá-la a sofrer na presidência da mesma necessidade de comprar votos vilmente, como aconteceu no passado com o ex-presidente Lula.

Barbosa está num partido maior, mas que não deixa de ser pequeno, e pouco se sabe o que ele pensa. Quando Barbosa se manifestou, nas raras vezes em que isso aconteceu fora dos tribunais, foi para espinafrar jornalistas que lhe faziam perguntas incômodas. É condenado em segunda instância no Distrito Federal por mandar um repórter "chafurdar no lixo".

Interlocutores de Barbosa no PSB dizem que suas ideias são de um liberal. Nesse caso, é de se estranhar o que ele faz no PSB, o partido herdeiro do velho PCB, o partido comunista. Seria mais um caso de abrigo numa legenda mercenária, que coloca um personagem populista para carregar votos para gente que está por trás do personagem de fachada, não necessariamente da mesma confiança.

O "novo" é velho

O "novo", dessa forma, se afigura como o velho - o velho populismo em que o importante não são os partidos e os programas de governo, mas o personagem carismático capaz de levantar alguma bandeira demagógica que o leve ao poder.

O novo, no caso do Brasil, não dispensa o passado recente. Como é difícil enxergar um novo presidente voltando atrás em tudo o que foi feito para consertar o caos de Dilma Rousseff, é importante certa continuidade. O descalabro nas contas públicas, a recessão econômica e o fracasso do modelo do Estado como indutor do crescimento de forma sustentada ainda estão na nossa frente.

Há projeções de crescimento econômico para este ano. Apesar disso, o atual governo participa ainda da marca da corrupção de antigas eras, de onde veio. O crescimento econômico não pode servir como chantagem para a manutenção no poder de quem o deseja para manter-se a salvo da Justiça. Isso não seria uma mudança real. O eleitor sabe disso, tanto que o presidente Michel Temer enfrenta uma rejeição de 70% do eleitorado, segundo o último levantamento do Datafolha.

O candidato do Brasil é um defensor da democracia, economicamente reformista, sem estar enlameado como seus pares, mas com um passado que garante certa estabilidade, apoiado num programa partidário que faça o governo não depender de um único lider carimático. Tem de ser um governo de um programa com ideias, tanto quanto de ideais.

Certa segurança, hoje, é tão importante quanto o "novo". O novo não garante tudo. O PT já foi o "novo", com um discurso anti-corrupção visceral, alimentado em uma sólida história de prática da oposição, e no governo deixou o país descambar para a mais desastrosa ruína moral de que se tem notícia. Ultrapassou nesse sentido outro "novo" que envelheceu rapidamente na nossa história recente: Fernando Collor.

A Lava Jato começou a mudar o mecanismo pelo qual antes todos viam a corrupção como o modo "normal" de operação. Isso, porém, ainda não se completou. É preciso defender a mudança de comportamento na política. Assim como é preciso alguém alinhado com a normalidade democrática. Ela existe no Brasil, mas só existe por conta de seus defensores. Como diz o velho ditado, atribuído a Thomas Jefferson, o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Não se pode por princípio descartar o velho. Desde que seja um velho capaz de dar segurança ao novo - e manter o leme na boa direção.

No meio de seu discurso de despedida da liberdade, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva disse uma frase que, entre todas as outras, merece mais atenção. "Eu acredito na Justiça". "Se não acreditasse, teria feito uma revolução nesse país."

A frase, pinçada no meio do discurso entre enraivecido e desapontado, é reveladora. Para Lula, era possível mudar o regime sem violência, usando as instituições, muitas vezes contra elas mesmas.

Virou moda citar a frase de Winston Churchill, segundo a qual a democracia é o pior dos regimes, com a exceção de todos os outros - talvez pelo recente filme sobre ele que passou nos cinemas ou pelo fato de que a democracia hoje atravessa seu maior desafio, não somente no Brasil como na América Latina e no mundo todo.

A democracia representativa se propõe a resolver o dilema fundamental da sociedade, que é o de produzir um governo eficiente e que atenda aos anseios da maioria da população, sem desrespeitar as minorias - permitindo que elas sejam representadas e tenham a oportunidade de eventualmente chegar ao poder.

Contudo, cresceu no Século XXI o sentimento de que as democracias não têm respondido bem aos problemas da sociedade contemporânea, ainda mais com os efeitos da era digital. Depois de uma mudança que estudiosos chamavam de "giro democrático" - a queda da União Soviética e a transformação das antigas ditaduras militares latino-americanas em democracias representativas, no final do Século XX -, elas passaram a enfrentar problemas em comum que refletem dificuldades essenciais.