14 Nov 2019
Thales Guaracy

Thales Guaracy

Foi editor de política e assuntos nacionais da revista Veja, editor executivo do Grupo Exame, editor sênior de O Estado de S. Paulo, diretor editorial e responsável pelo lançamento no Brasil da revista Forbes, entre outras publicações. Foi ainda diretor editorial da Saraiva para a publicação de livros de ficção e não ficção, criador do selo e do Prêmio Benvirá de Literatura. Ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo Político e de 12 prêmios Abril de Jornalismo, pertenceu ao corpo de jurados do Prêmio Esso de Jornalismo e do Prêmio Petrobras de Jornalismo.

Como autor, publicou livros de reportagem como O Sonho Brasileiro - Como Rolim Amaro Construiu a TAM e sua Filosofia de Negócios; A Conquista do Brasil: 1500-1600; A  Criação do Brasil: 1600-1700; e Eles Me Disseram – As ideias e valores de 21 brasileiros de sucesso, além de mais uma dezena de obras de ficção e não-ficção.

Num planeta com recursos cada vez mais escassos, do combustível à água potável, uma população crescente e a exposição diária pelo meio digital ao conflito, na forma de um entrechoque de ideias, identidades e interesses, a administração da intolerância se tornou uma questão essencial das políticas públicas em escala global, tanto quanto o meio ambiente e o avanço da economia também sob a influência dos mercados digitais.

Segunda, 05 Novembro 2018 12:02

Da Justiça depende a democracia

A discussão sobre a qualidade da democracia como a melhor forma de governo não é de hoje, assim como não é de hoje que existe uma relação direta enre a qualidade de uma democracia e a qualidade da Justiça.

Em A República, uma das obras basilares do pensamento universal, o filósofo ateniense Platão começa a discutir toda a política e a organização humana a partir da noção de Justiça. Com diálogos de Sócrates, o mestre pensador, Platão procura estabelecer se é melhor ser justo ou injusto, até consagrar a ideia de que ser justo é bom. Da noção individual de Justiça, Platão passa para a noção de Justiça coletiva, como condição para a existência de um governo e da própria Pólis - a cidade, criada para para que se tenha segurança, os bens possam ser divididos e onde os mais fracos são protegidos, de modo a assegurar a vida humana.

Bohemian Rhapsody, o filme que retrata a vida de Fred Mercury e do Queen, ícones da música pop dos anos 1970 e 1980, não é apenas um grande filme, por várias razões. É também uma lição do Brasil para o Brasil.

Quinta, 25 Outubro 2018 21:24

A esperança vence o medo, mas muda de lado

Neste domingo, ao dar a vitória a Jair Bolsonaro nas urnas, por 55,1% dos votos válidos contra 44,9% de Fernando Haddad, o eleitorado brasileiro deu mais uma demonstração de fé em si mesma e no regime democrático. Na primeira eleição de Lula, no já distante ano de 2002, o ex-presidente assinalou sua vitória com a frase: "a esperança venceu o medo". O medo era o terrorismo eleitoral, segundo o qual o PT radicalizaria o país e o levaria a um projeto de poder estatizante e autoritário de esquerda. A esperança era de que, em vez disso, Lula conduzisse o país de forma democrática ao progresso com mais justiça social. Lula ganhou, contra os maus prognósticos, e teve a sua chance de mudar o país.

Depois de praticamente dezesseis anos de gestão petista, que quase quebrou o Estado e montou um esquema de corrupção estendido aos países vizinhos, num projeto de poder internacional, a esperança vence novamente o medo. O medo agora é do radical oposto, usado para apear o lulopetismo do poder: tem um discurso reacionário, pendores autoritários e ares militarizados, que também podem ir longe demais. Para aueles que acham que o eleitor brasileiro não sabe votar, ele respondeu com um remédio forte, contra uma doença grave. A esperança vence novamente o medo, mas mudou de lado.

Quinta, 25 Outubro 2018 20:24

Lula, ou Recordações da Casa dos Mortos

Da sua cela na Polícia Federal em Curitiba, o ex-presidente Lula enviou uma carta, manifestando sua perplexidade com a iminência da vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais.

"Por que tanto ódio ao PT?" - indaga ele. "Tenho consciência de que fizemos o melhor para o Brasil e o nosso povo."

Lula não escreve, mas sabe que cometeu um erro de cálculo político. Para não dizer histórico. E de vida.

Segunda, 22 Outubro 2018 17:35

A democracia brasileira funciona?

Passaram para o segundo turno os dois candidatos com mais votos, porém também com o maior índice de rejeição junto ao eleitorado. Em vez dos nomes mais moderados, os vencedores são os polos opostos de uma verdadeira guerra que galvanizou a sociedade brasileira, deixa os nervos à flor da pele e o futuro um tanto incerto. Um deles neste domingo será eleito e provavelmente no instante seguinte se desfará a coalização formada para este momento, deixando para a posse a certeza de uma forte oposição. Surge a pergunta: nossa democracia funciona bem? Há legitimidade e eficácia na escolha popular, feita dessa forma?

Em 1591, o primeiro Visitador do Santo Oficio, Heitor Furtado de Mendonça, chegou a Salvador com a missão de ouvir os cidadãos, receber denúncias e assim instaurar a Inquisição no Brasil por crimes ao mesmo tempo contra a Igreja e o Estado. Antigo desembargador real, capelão fidalgo do rei Filipe II de Espanha e deputado do Santo Ofício, ele não esperava, no entanto, pela realidade que encontrou.

Enquanto na Europa era preciso a tortura para extrair confissões e denúncias, no Brasil ocorreu o contrário: uma facilidade inaudita que instalou uma fila permanente na porta do Visitador. Choveram relatos de gente sequiosa tanto para confessar os próprios pecados quanto denunciar os outros, de preferência vizinhos ou desafetos.

Como mostro no meu livro A Criação do Brasil (1600-1700), em dois anos Dom Heitor tinha uma lista com 40.000 nomes de acusados, quase a população inteira de Salvador. Embora sua missão fosse levar a Inquisição a toda a colônia, sequer conseguiu sair da capital. Num ambiente em que todos falavam mal de todos, o efeito final foi nulo.

Quando foi eleito pela primeira vez, Lula era uma grande esperança brasileira. Saído da Nova República, vinha acrescentar a justiça social ao trabalho de estabilização econômica. O país tomava o rumo do desenvolvimento sustentável ao mesmo tempo que de uma sociedade mais justa.

Desse ponto, Lula se perdeu, num delírio de poder. Construiu na prática a carreira de um líder populista, um outro pai do povo. Quebrou o Estado distribuindo dinheiro como se fosse seu. Permitiu e patrocinou o alastramento da corrupção, que de algo ocasional virou um método de trabalho. Instalou-se o crime no país de forma sistêmica.

Quarta, 10 Outubro 2018 21:16

Roger Waters omite os outros ditadores

Astro conhecido pelos tempos da banda Pink Floyd, com pendores lisérgico-libertários, Roger Waters resolveu colocar no seu show em São Paulo, em luminoso garrafal, a hashtag #elenão. Achou que faria o maior sucesso, e se deu mal. Tomou uma vaia retumbante, prolongada e raivosa, e confessadamente se arrependeu de ter metido a mão nesse  vespeiro. "Eu não conheço bem a situação", explicou, ao microfone, numa tentativa de apaziguar os ânimos e continuar o espetáculo.

O que causa estranheza não é o fato de um estrangeiro que não "conhece bem a situação" se achar no direito de dar pitaco na política de outro país, desdenhando do princípio da livre determinação dos povos. Afinal, o pensamento e as posições políticas são livres e globais. Um gringo pode ter também a opinião que quiser, com a diferença de que não vota. E também não faz a cabeça de ninguém, como ficou provado pela vaia histórica no Allianz Park.

Estranho, mesmo, é que Waters resolva fazer seu protesto contra Bolsonaro, e Bolsonaro somente. Se é verdade que o ex-capitão simpatiza com o golpe militar de 1964, já desculpou até a tortura e se apresenta como uma figura constrangedora para a liberdade política e de pensamento, também é verdade que o polo oposto - a coligação PT-PcdoB, que se arvora agora segundo Fernando Haddad como defensora da democracia, é igualmente de natureza autoritária e ditatorial. 

Segunda, 08 Outubro 2018 20:42

Bolsonaro é bem mais que o anti-Lula

"Eu acho que tem de votar contra o PT, mas o Bolsonaro fala também tudo o que eu penso, só não posso dizer", afirma D., engenheiro paulistano de 50 anos, executivo de uma construtora, casado e pai de três filhos.