15 Set 2019
Thales Guaracy

Thales Guaracy

Foi editor de política e assuntos nacionais da revista Veja, editor executivo do Grupo Exame, editor sênior de O Estado de S. Paulo, diretor editorial e responsável pelo lançamento no Brasil da revista Forbes, entre outras publicações. Foi ainda diretor editorial da Saraiva para a publicação de livros de ficção e não ficção, criador do selo e do Prêmio Benvirá de Literatura. Ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo Político e de 12 prêmios Abril de Jornalismo, pertenceu ao corpo de jurados do Prêmio Esso de Jornalismo e do Prêmio Petrobras de Jornalismo.

Como autor, publicou livros de reportagem como O Sonho Brasileiro - Como Rolim Amaro Construiu a TAM e sua Filosofia de Negócios; A Conquista do Brasil: 1500-1600; A  Criação do Brasil: 1600-1700; e Eles Me Disseram – As ideias e valores de 21 brasileiros de sucesso, além de mais uma dezena de obras de ficção e não-ficção.

Tem circulado pelo WhasApp um texto atribuído ao editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, incentivando as pessoas a comprarem livros neste Natal, por "amor ao livro", e para ajudar o mercado a reerguer-se, após o pedido de concordata das livrarias Cultura e Saraiva. Responsáveis por quase metade do faturamento do mercado, sua inadimplência ameaça agora levar de roldão também as editoras brasileiras.

Terça, 27 Novembro 2018 16:39

A política do pragmatismo

Político experimentado em quase três décadas no Congresso, o presidente eleito Jair Bolsonaro aos poucos mostra ter uma estratégia própria para superar uma dificuldade de seu futuro governo - o fato de seu partido possuir menos de 10% das cadeiras no Congresso, correndo o risco de cair, com ocorreu com o PT e o PSDB, na política de troca de favores para obter maioria, de forma a aprovar seus projetos. A nomeação dos seus dois principais interlocutores com o Congresso mostra como Bolsonaro pretende escapar dessa armadilha, mudando a relação do Executivo com o Legislativo.

Ainda no início da campanha eleitoral, o presidente eleito Jair Bolsonaro visitou a cidade de Araxá, no triângulo mineiro, para ver as escavações de nióbio feitas pelas mineradoras que exploram a região. Deixou registrado um vídeo no Youtube, com seu entusiasmo. "Se o Estados Unidos têm o Vale do Silício, podemos ter aqui o Vale do Nióbio", disse ele.

 Bolsonaro acertou num outro alvo. No Vale do Silício, apesar do nome, não há nenhuma exploração de silício, embora esteja lá a grande fonte de recursos da economia americana e global, responsável pela brutal concentração de renda mundial nos Estados Unidos. Ali não existe extração mineral: "Vale do Silício" é uma referência metafórica às empresas de alta tecnologia, que ali gravitam em torno de uma universidade e da verdadeira fonte de riqueza do mundo contemporâneo: a educação.

Quinta, 22 Novembro 2018 16:09

Por que a escola não deve ter partido

POR THALES GUARACY

Uma das mais impressionantes cenas da coletânea de peças "Terror e Miséria no Terceiro Reich", de Bertold Brecht, narra o jantar de dois pais, cuja conversa vai se transformando em uma escalada da paranoia, na medida em que esperam o filho chegar da escola - e ele começa a demorar.

 Brecht lembra como o regime nazista doutrinava as crianças no ambiente escolar, fazendo os pais temerem os próprios filhos, que podiam denunciá-los por subversão, com qualquer motivo arbitrário - até vingança por uma pequena bronca. A discussão frenética dos pais, receosos de estarem sendo denunciados, e seu medo crescente da prisão, revelam a base de qualquer sistema totalitário, como o nazi-fascismo de Adolph Hitler, capaz de instalar o terror até dentro de casa.

A peça de Brecht serve para nos lembrar por que não se deve politizar a escola - nem, num Estado laico, tanto quanto democrático, estabelecer uma educação religiosa no ensino oficial. Nestes tempos de reação à ideia da Escola Sem Partido, uma das bandeiras adotadas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, cujo projeto deve ser votado quinta-feira pela Câmara Federal, é necessário lembrar a verdadeira função da escola, sobretudo a da escola pública, que é formar para a liberdade - a liberdade de escolher, sem imposição de qualquer tipo de ideologia, instrumento utilizado apenas por regimes com vocação autoritária.

Num planeta com recursos cada vez mais escassos, do combustível à água potável, uma população crescente e a exposição diária pelo meio digital ao conflito, na forma de um entrechoque de ideias, identidades e interesses, a administração da intolerância se tornou uma questão essencial das políticas públicas em escala global, tanto quanto o meio ambiente e o avanço da economia também sob a influência dos mercados digitais.

Segunda, 05 Novembro 2018 12:02

Da Justiça depende a democracia

A discussão sobre a qualidade da democracia como a melhor forma de governo não é de hoje, assim como não é de hoje que existe uma relação direta enre a qualidade de uma democracia e a qualidade da Justiça.

Em A República, uma das obras basilares do pensamento universal, o filósofo ateniense Platão começa a discutir toda a política e a organização humana a partir da noção de Justiça. Com diálogos de Sócrates, o mestre pensador, Platão procura estabelecer se é melhor ser justo ou injusto, até consagrar a ideia de que ser justo é bom. Da noção individual de Justiça, Platão passa para a noção de Justiça coletiva, como condição para a existência de um governo e da própria Pólis - a cidade, criada para para que se tenha segurança, os bens possam ser divididos e onde os mais fracos são protegidos, de modo a assegurar a vida humana.

Bohemian Rhapsody, o filme que retrata a vida de Fred Mercury e do Queen, ícones da música pop dos anos 1970 e 1980, não é apenas um grande filme, por várias razões. É também uma lição do Brasil para o Brasil.

Quinta, 25 Outubro 2018 21:24

A esperança vence o medo, mas muda de lado

Neste domingo, ao dar a vitória a Jair Bolsonaro nas urnas, por 55,1% dos votos válidos contra 44,9% de Fernando Haddad, o eleitorado brasileiro deu mais uma demonstração de fé em si mesma e no regime democrático. Na primeira eleição de Lula, no já distante ano de 2002, o ex-presidente assinalou sua vitória com a frase: "a esperança venceu o medo". O medo era o terrorismo eleitoral, segundo o qual o PT radicalizaria o país e o levaria a um projeto de poder estatizante e autoritário de esquerda. A esperança era de que, em vez disso, Lula conduzisse o país de forma democrática ao progresso com mais justiça social. Lula ganhou, contra os maus prognósticos, e teve a sua chance de mudar o país.

Depois de praticamente dezesseis anos de gestão petista, que quase quebrou o Estado e montou um esquema de corrupção estendido aos países vizinhos, num projeto de poder internacional, a esperança vence novamente o medo. O medo agora é do radical oposto, usado para apear o lulopetismo do poder: tem um discurso reacionário, pendores autoritários e ares militarizados, que também podem ir longe demais. Para aueles que acham que o eleitor brasileiro não sabe votar, ele respondeu com um remédio forte, contra uma doença grave. A esperança vence novamente o medo, mas mudou de lado.

Quinta, 25 Outubro 2018 20:24

Lula, ou Recordações da Casa dos Mortos

Da sua cela na Polícia Federal em Curitiba, o ex-presidente Lula enviou uma carta, manifestando sua perplexidade com a iminência da vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais.

"Por que tanto ódio ao PT?" - indaga ele. "Tenho consciência de que fizemos o melhor para o Brasil e o nosso povo."

Lula não escreve, mas sabe que cometeu um erro de cálculo político. Para não dizer histórico. E de vida.

Segunda, 22 Outubro 2018 17:35

A democracia brasileira funciona?

Passaram para o segundo turno os dois candidatos com mais votos, porém também com o maior índice de rejeição junto ao eleitorado. Em vez dos nomes mais moderados, os vencedores são os polos opostos de uma verdadeira guerra que galvanizou a sociedade brasileira, deixa os nervos à flor da pele e o futuro um tanto incerto. Um deles neste domingo será eleito e provavelmente no instante seguinte se desfará a coalização formada para este momento, deixando para a posse a certeza de uma forte oposição. Surge a pergunta: nossa democracia funciona bem? Há legitimidade e eficácia na escolha popular, feita dessa forma?