14 Nov 2019
Thales Guaracy

Thales Guaracy

Foi editor de política e assuntos nacionais da revista Veja, editor executivo do Grupo Exame, editor sênior de O Estado de S. Paulo, diretor editorial e responsável pelo lançamento no Brasil da revista Forbes, entre outras publicações. Foi ainda diretor editorial da Saraiva para a publicação de livros de ficção e não ficção, criador do selo e do Prêmio Benvirá de Literatura. Ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo Político e de 12 prêmios Abril de Jornalismo, pertenceu ao corpo de jurados do Prêmio Esso de Jornalismo e do Prêmio Petrobras de Jornalismo.

Como autor, publicou livros de reportagem como O Sonho Brasileiro - Como Rolim Amaro Construiu a TAM e sua Filosofia de Negócios; A Conquista do Brasil: 1500-1600; A  Criação do Brasil: 1600-1700; e Eles Me Disseram – As ideias e valores de 21 brasileiros de sucesso, além de mais uma dezena de obras de ficção e não-ficção.

Terça, 08 Janeiro 2019 14:37

A explosão da dura realidade do Brasil

A série de ataques terroristas no Ceará, que visam espalhar o medo na população, desorganizar os serviços públicos e chantagear o poder constituído, em especial o governador reeleito, Camilo Santana, é apenas a explosão da realidade latente do Brasil.

Não é a primeira vez que isso acontece e, se não houver o combate apropriado ao crime organizado, agora, e sem medo, como promete o novo  ministro da Justiça, Sergio Moro, o problema apenas tende a se alastrar.

A realidade é dura, mas não se pode fugir dela. O fato é que o crime organizado alcançou uma força capaz de intimidar o poder público, substituí-lo em alguns lugares, e somente uma série de medidas de caráter legal, judicial e social pode modificar esse cenário.

Sexta, 04 Janeiro 2019 23:48

O governo se arrisca a morrer pela boca

O presidente Jair Bolsonaro tem se caracterizado pelo entusiasmo para enfrentar problemas em todos os setores e a disposição de corrigir erros, a começar pelos próprios. Portanto, já deve ter percebido os riscos da sua ideia de governar como um disparador de tuítes.

Ele gosta de mencionar Donald Trump como seu modelo, mas anda mais parecido com outro político, igualmente eleito sobre a plataforma do combate à corrupção. O último presidente brasileiro que fez coisa parecida com ele foi Jânio Quadros, cujo tema central de campanha era expresso na frase moralizadora "Varre, varre, vassourinha", e que inventou de governar com seus famosos "bilhetinhos" - a mídia equivalente, na época, ao tuíte contemporâneo.

Jânio ficou conhecido por surpreender os próprios colaboradores com decisões e comentários manuscritos naqueles pequenos torpedos, que, remetidos em profusão, burlavam as vias institucionais, a pretexto de agilizar as coisas. Eram medidas de governo, recados, ordens, admoestações, que versavam sobre tudo. Isso não fez dele um inovador da administração pública. Apenas ajudou a juntar ao seu redor um clima de medo e incerteza quanto ao que era oficial ou não. Os bilhetinhos de Jânio geraram a desordem e por fim uma hostilidade que colaboraram para seu isolamento e, afinal, sua renúncia.

Sexta, 21 Dezembro 2018 21:11

O suicídio da Editora Abril

Em março de 2013, almocei num restaurante da Vila Madalena com o então secretário editorial da Editora Abril, Alfredo Ogawa, que vinha em nome do Roberto Civita me fazer uma pergunta. "Você gostaria de dirigir o Grupo Playboy?", quis saber.

Sexta, 21 Dezembro 2018 11:16

Um tragédia que ainda pulsa

A jornalista Cristina Serra passou os últimos dois anos trabalhando em um ambicioso projeto: escrever um livro-reportagem sobre Mariana, onde o estouro da barragem do Fundão atirou uma avalanche de lama, areia e rejeitos de minério de ferro sobre a cidade histórica, deixando um rastro de morte e desolação por mais 660 quilômetros abaixo no rio Doce.

Mais conhecida como repórter do Jornal Nacional e do Fantástico da Rede Globo, onde cobriu política em Brasília e trabalhou como correspondente em Nova York, hoje também colunista de A República, Serra é um caso raro de jornalista que trafega bem em todos os tipos de veículo.

Assim como seu colega Caco Barcelos, autor de Abusado e outros best sellers, e Paulo Markun, de O Brado Retumbante e obras premiadas, ela se mostra tão à vontade no texto quanto diante da câmera de TV. E produziu, em livro, uma reportagem que tem um impacto tão visual para o leitor que parece ser lido como quem vê um documentário.

Sábado, 08 Dezembro 2018 12:18

Sim às reformas. Mas que reformas?

Tomando como uma amostra representativa três deputados de diferentes partidos que participaram de um evento na sexta-feira (leia aqui), podemos chegar às seguintes conclusões sobre como será o novo Congresso Nacional, pelo menos na Câmara:

A primeira universidade da América, a Universidade de Santo Domingo, foi fundada em 1538. A segunda, no Peru, em 1551: a Universidade Maior de São Marcos, em Lima. Foram inspiradas nas celebradas universidades espanholas de Salamanca, de vertente humanista, e Alcala, católica.

No Brasil, nada.

Em 1636, quando foi fundada a Universidade de Harvard, já havia 16 escolas de ensino superior na América espanhola, incluindo o Chile e o México, e ainda nenhuma no Brasil.

No período colonial, a América Espanhola formou cerca de 150.000 universitários, enquanto os 2.500 graduados brasileiros se formaram na Universidade de Coimbra, que detinha a reserva de mercado para a formação de ensino superior dos habitantes da colônia.

Tem circulado pelo WhasApp um texto atribuído ao editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, incentivando as pessoas a comprarem livros neste Natal, por "amor ao livro", e para ajudar o mercado a reerguer-se, após o pedido de concordata das livrarias Cultura e Saraiva. Responsáveis por quase metade do faturamento do mercado, sua inadimplência ameaça agora levar de roldão também as editoras brasileiras.

Terça, 27 Novembro 2018 16:39

A política do pragmatismo

Político experimentado em quase três décadas no Congresso, o presidente eleito Jair Bolsonaro aos poucos mostra ter uma estratégia própria para superar uma dificuldade de seu futuro governo - o fato de seu partido possuir menos de 10% das cadeiras no Congresso, correndo o risco de cair, com ocorreu com o PT e o PSDB, na política de troca de favores para obter maioria, de forma a aprovar seus projetos. A nomeação dos seus dois principais interlocutores com o Congresso mostra como Bolsonaro pretende escapar dessa armadilha, mudando a relação do Executivo com o Legislativo.

Ainda no início da campanha eleitoral, o presidente eleito Jair Bolsonaro visitou a cidade de Araxá, no triângulo mineiro, para ver as escavações de nióbio feitas pelas mineradoras que exploram a região. Deixou registrado um vídeo no Youtube, com seu entusiasmo. "Se o Estados Unidos têm o Vale do Silício, podemos ter aqui o Vale do Nióbio", disse ele.

 Bolsonaro acertou num outro alvo. No Vale do Silício, apesar do nome, não há nenhuma exploração de silício, embora esteja lá a grande fonte de recursos da economia americana e global, responsável pela brutal concentração de renda mundial nos Estados Unidos. Ali não existe extração mineral: "Vale do Silício" é uma referência metafórica às empresas de alta tecnologia, que ali gravitam em torno de uma universidade e da verdadeira fonte de riqueza do mundo contemporâneo: a educação.

Quinta, 22 Novembro 2018 16:09

Por que a escola não deve ter partido

POR THALES GUARACY

Uma das mais impressionantes cenas da coletânea de peças "Terror e Miséria no Terceiro Reich", de Bertold Brecht, narra o jantar de dois pais, cuja conversa vai se transformando em uma escalada da paranoia, na medida em que esperam o filho chegar da escola - e ele começa a demorar.

 Brecht lembra como o regime nazista doutrinava as crianças no ambiente escolar, fazendo os pais temerem os próprios filhos, que podiam denunciá-los por subversão, com qualquer motivo arbitrário - até vingança por uma pequena bronca. A discussão frenética dos pais, receosos de estarem sendo denunciados, e seu medo crescente da prisão, revelam a base de qualquer sistema totalitário, como o nazi-fascismo de Adolph Hitler, capaz de instalar o terror até dentro de casa.

A peça de Brecht serve para nos lembrar por que não se deve politizar a escola - nem, num Estado laico, tanto quanto democrático, estabelecer uma educação religiosa no ensino oficial. Nestes tempos de reação à ideia da Escola Sem Partido, uma das bandeiras adotadas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, cujo projeto deve ser votado quinta-feira pela Câmara Federal, é necessário lembrar a verdadeira função da escola, sobretudo a da escola pública, que é formar para a liberdade - a liberdade de escolher, sem imposição de qualquer tipo de ideologia, instrumento utilizado apenas por regimes com vocação autoritária.