14 Nov 2019
Thales Guaracy

Thales Guaracy

Foi editor de política e assuntos nacionais da revista Veja, editor executivo do Grupo Exame, editor sênior de O Estado de S. Paulo, diretor editorial e responsável pelo lançamento no Brasil da revista Forbes, entre outras publicações. Foi ainda diretor editorial da Saraiva para a publicação de livros de ficção e não ficção, criador do selo e do Prêmio Benvirá de Literatura. Ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo Político e de 12 prêmios Abril de Jornalismo, pertenceu ao corpo de jurados do Prêmio Esso de Jornalismo e do Prêmio Petrobras de Jornalismo.

Como autor, publicou livros de reportagem como O Sonho Brasileiro - Como Rolim Amaro Construiu a TAM e sua Filosofia de Negócios; A Conquista do Brasil: 1500-1600; A  Criação do Brasil: 1600-1700; e Eles Me Disseram – As ideias e valores de 21 brasileiros de sucesso, além de mais uma dezena de obras de ficção e não-ficção.

Sexta, 03 Maio 2019 11:30

Jô Soares ainda olha para os outros

Depois de publicar o segundo volume de suas memórias, O Livro de Jô, o multihomem Jô Soares resolveu contar histórias de sua vida no palco do teatro Faap, no espetáculo O Livro ao Vivo, de quinta a domingo. Sentado diante da plateia, usando apenas o seu magnetismo pessoal como instrumento, ao lado do jornalista Matinas Suzuki Jr como um "entrevistador", é o mesmo Jô de sucesso garantido: o Jô do teatro, do cinema, das entrevistas e das colunas na imprensa, com inteligência aguda, virtude cada vez mais rara, tão rara quanto fundamental.

Sexta, 26 Abril 2019 15:25

Bolsonaro e as vãs filosofias

O presidente Jair Bolsonaro escreveu em seu Twitter na sexta-feira que o governo deverá abandonar as faculdades públicas de filosofia e sociologia.

O motivo seria "ficar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina".

"A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta", escreveu.

É um clássico da história política o momento em que o soberano, ao receber uma má notícia, ou para evitar que ela se espalhe, manda matar o mensageiro.

Não é fácil ser mensageiro.

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes de suspender reportagens dos sites Crusoé e Antagonista, sob pena de multa diaria de 100 mil reais, é desse naipe. Diante da má notícia, desconta no veículo da notícia.

Quarta, 10 Abril 2019 21:29

O fim da objetividade

Quem navega pela internet hoje se vê diante não de fatos, entendidos como acontecimentos sobre os quais não cabe interpretação, mas de múltiplas versões sobre fatos, previsíveis de acordo com quem os descreve ou analisa.

Basta olhar os títulos das reportagens na primeira página dos portais. Mesmo com relação a fatos supostamente objetivos, há abordagens subjetivas que podem levar a conclusões opostas sobre um acontecimento ou situação.

Por exemplo, para o Globo,  “em 100 dias Bolsonaro cumpre mais promessas que Dilma e Temer no mesmo período”.

Para a Folha de S. Paulo/UOL, “Bolsonaro cumpriu apenas 13 das suas 35 propostas [nos 100 dias]”

Além do noticiário jornalístico, mais sujeito que nunca a escolhas conforme a política editorial de cada veículo, os portais  encheram seu espaço com um articulismo onde o fato é produto da opinião, e não o contrário.

Espera-se não o conteúdo, mas a versão já previamente esperada daquele conteúdo.

Exemplos:

"Governo não tem um projeto nacional para o Brasil" (de Marco Antônio Villa, comentarista da Jovem Pan).

"Falta ao Brasil política de saúde digna desse nome" (do médico Drauzio Varella).

"Infantil, a esquerda brasileira está perdida" (do ex-ministro Delfim Netto)

São 8:15 da manhã da segunda-feira, dia 24, e há bastante movimento ao redor da longa mesa de café da manhã na Figueira Rubayat, restaurante dos Jardins, em São Paulo, onde a fina flor come os melhores bifes da cidade sob a gigantesca árvore que lhe dá o nome. Ao fundo do restaurante, a mesa do café da manhã está cercada pelos profissionais de relações governamentais, reunidos pela sua entidade, a Abrig, para um encontro com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ele mora ali perto e chega para o compromisso a pé.

Com o fenótipo de um Clark Kent à brasileira, óculos de aro de tartaruga que dão mais leveza, Salles conversa com os lobistas sem pressa, até a hora de entrar no salão de eventos. Entronizado numa área do governo sujeita ao constante patrulhamento político de ONGs e outras forças mercuriais, e dentro de um governo marcado pela forte oposição ao seu posicionamento ideológico, ele faz um discurso na medida para colocar a ideologia de lado.

A crise política instalada em Brasília, com o impasse entre o Executivo do presidente Bolsonaro e o Legislativo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é o resultado de uma peculiaridade da política brasileira, na qual a esquerda ou a direita vêm ganhando as eleições majoritárias, mas somente o Centro é quem governa, não importa o lado vencedor.

Quarta, 20 Março 2019 17:01

O Brumadinho da política brasileira

É preciso um certo cuidado com o catastrofismo, mas, num país em que aconteceu um Brumadinho logo depois de Mariana, é preciso prestar mais atenção nos detalhes que levam aos desastres.

E há hoje muitos sinais de um grande desabamento que não devem ser desprezados.

O bárbaro massacre de estudantes e funcionários da escola Raul Brasil, em Suzano, levantou uma onda de comoção em todo o país. O massacre se junta à  sensação de disseminação da violência no cotidiano, espalhada em todos os campos da vida nacional.

A violência está por perto no adolescente que entra na escola para matar colegas. Na prisão de policiais acusados de assassinar a vereadora Marielle Franco, a bordo de milícias que tinham parentes empregados no gabinete do filho do presidente - sendo que o atirador morava no mesmo condomínio que ele.

Não se pode dizer que há envolvimento do presidente e sua família com a milícia e o crime, muito menos que ele é responsável pelo que aconteceu em Suzano. Porém, o chefe de governo representa o Estado. Está claro que há uma responsabilidade do Estado em tudo o que está acontecendo. E que não há coincidências.

Segunda, 11 Março 2019 14:41

Brasil: o que somos e o que queremos ser

Na entrada da cidade de São Bento do Sapucaí, sobre um mastro de ferro em um antiquário semiabandonado, tremula hoje em trapos uma bandeira do Brasil. Esquecida por quem a colocou ali, ignorante da lei, que não permite o uso de uma bandeira desfigurada, ela é mais do que um símbolo: é o retrato bem atual daquilo que somos, em vez daquilo que queríamos ser.

O pedaço que falta nessa bandeira é a o que deveria ter sido realizado pelo Brasil ao longo dos últimos séculos. Nos quinhentos anos que nos separam da chegada dos portugueses à costa brasileira,  Nações ricas foram construídas com maior rapidez e durabilidade.

Os Estados Unidos se tornaram a Nação mais rica do planeta. Países como a Austrália e o Canadá possuem um nível de vida muito superior ao nosso. Os países do Velho Mundo, se bem que inicialmente às custas da colonização, se transformaram em países ricos, com um padrão de vida mais equilibrado entre todos os cidadãos, dentro de modelos democráticos que se sustentam há muito tempo, apesar das crises eventuais.

O influenciador político Olavo de Carvalho, que indicou pelo menos dois ministros de Estado (Ricardo Vélez, na Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores), além de um número de funcionários de primeiro e segundo escalão que ele mesmo conta em "umas poucas dezenas", exortou pelas redes sociais na sextafeira, dia 8, todos o seus "alunos" a saírem do governo "o mais cedo possível", para "voltar à sua vida de estudos". "O presente governo está repleto de inimigos do povo e andar em companhia desses pústulas só é bom para quem seja como eles", escreveu.

Carvalho passa a impressão de que se trata de uma retirada voluntária, quando o que ocorreu foi um afastamento de seus colaboradores, a começar pelo primeiro escalão do Ministério da Educação. “O expurgo de alunos do Olavo de Carvalho do MEC é a maior traição dentro do governo Bolsonaro que se viu até agora", postou no Facebook Silvio Grimaldo de Camargo, um dos oito "discípulos" afastados após uma reunião de Vélez com militares e membros da Casa Civil na tarde da sexta-feira.

Transformado de guru em opositor, Carvalho se manifesta por meio de vídeos, em tom agressivo, como o dono da verdade, composta por um moralismo recheado de palavrões e ofensas gratuitas. Reuniu ao seu redor um grupo fervoroso que o trata como a um aiatolá brasileiro radicado na Virgínia - e se tornou a maior ameaça ao governo dentro do próprio governo.