15 Set 2019
Thales Guaracy

Thales Guaracy

Foi editor de política e assuntos nacionais da revista Veja, editor executivo do Grupo Exame, editor sênior de O Estado de S. Paulo, diretor editorial e responsável pelo lançamento no Brasil da revista Forbes, entre outras publicações. Foi ainda diretor editorial da Saraiva para a publicação de livros de ficção e não ficção, criador do selo e do Prêmio Benvirá de Literatura. Ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo Político e de 12 prêmios Abril de Jornalismo, pertenceu ao corpo de jurados do Prêmio Esso de Jornalismo e do Prêmio Petrobras de Jornalismo.

Como autor, publicou livros de reportagem como O Sonho Brasileiro - Como Rolim Amaro Construiu a TAM e sua Filosofia de Negócios; A Conquista do Brasil: 1500-1600; A  Criação do Brasil: 1600-1700; e Eles Me Disseram – As ideias e valores de 21 brasileiros de sucesso, além de mais uma dezena de obras de ficção e não-ficção.

Segunda, 20 Maio 2019 14:33

A política para acobertar o crime

Num mundo cheio das falácias do meio digital, caberia aos esclarecidos colaborar para que fossem sepultadas. E hoje o Brasil enfrenta um único e verdadeiro inimigo: o encantamento das serpentes, que é o acobertamento do crime por meio da política, turbinada pelas redes sociais.

O grande princípio que norteou e trouxe sucesso à Lava Jato, aceito pelo Supremo Federal e a Justiça de forma geral, é o fato de que o crime do colarinho branco nunca deixa digitais. Usa laranjas e outros expedientes para colocar um anteparo entre o mentor e beneficiário do crime e o crime propriamente dito.

A Lava Jato só pega essa gente graúda porque usa outros instrumentos, como a delação premiada - testemunho também é prova. Isso porque pela primeira vez na história brasileira tem o objetivo de pegar os mandantes, e não a peãozada.

Assim foi com Lula, que tinha propriedades em nome de amigos, contas em nomes de outras pessoas, e ainda usava seu poder de encantar as massas para fazer pressão sobre o poder público. Dizia que não existiam provas, porque não há as digitais, e convocava a militância para as ruas, querendo fazer parecer perseguição política o que era apenas um processo criminal.

Ao convocar a manifestação de 26 de maio, o presidente Jair Bolsonaro segue o mesmo caminho. Começa a aparecer no seu rastro um grande laranjal. Sua ex-mulher, Ana, e outros parentes foram detectados como funcionários fantasmas que devolviam o dinheiro do salário ao filho, Flávio Bolsonaro, por meio de Fabrício Queiroz - a prática da chamada "rachadinha"

O Ministério Público viu aí uma "organização criminosa", que explorava sistematicamente esse esquema para arrecadar . Investiga ainda as relações de Flávio com as milícias, pela proximidade com o Capitão Adriano e o fato de enriquecer negociando imóveis - uma das áreas onde atuava o Escritório do Crime, do capitão hoje foragido da polícia, suspeita ainda de envolvimento na morte da vereador Marielle Franco.

Pior: o presidente, que tinha a ex-mulher no esquema, além de outros funcionários que fantasmagoreavam tanto no seu gabinete quanto no de Flávio, parece indissociável da investigação sobre o filho. A "organização" dos Bolsonaro, pelo que verificou o MP, é uma coisa só.

Ao querer agora associar a investigação a um ataque político, tanto do Congresso quanto do STF, Bolsonaro faz exatamente como Lula. Procura jogar uma cortina de fumaça sobre uma investigação criminal.

"Não vão me pegar", bradou ele, ao seu estilo. Talvez mostrasse mais virilidade se fizesse passar os projetos no Congresso, em vez de se mostrar reclamando do sistema e tão preocupado com a própria sombra, atirando até mesmo nos próprios colaboradores.

O Congresso foi eleito de forma tão legítima quanto Bolsonaro. Sua resposta às iniciativas do governo tem também a legitimidadde da delegação popular. Não adianta reclamar de uma emparedamento. Se o governo Bolsonaro está parado, é mais por seus próprios erros. E não adianta culpar os outros.

Nós já sabemos como acabam essas histórias. Para a Lava Jato, não importa que o dinheiro entrou nos gabinetes dos Bolsonaro na forma de depósitos à vista de origem indeterminada. Nem que o operador seja Fabrício Queiroz. Eles têm os instrumentos, hoje em dia, para chegar ao mandante. Os Bolsonaro sabem disso, Por isso, o presidente já coloca na rua sua máquina de pressão, a pretexto de estar sendo vítima do "sistema".

O Congresso não é um ninho de anjos, é verdade. Porém, o "sistema" tambem foi feito para conter descalabros e colaborar para a investigação de crimes de um poder pelo outro. É o republicanismo, de que Bolsonaro tanto fala, e seu pleno funcionamento.

Ao acusar o Congresso de golpismo, Bolsonaro não quer contestar ou purificar o sistema, como alega. Quer apenas salvar a sua própria pele. Ou arriscar seu próprio golpe. E jogar a população contra oura Casa onde os integrantes foram eleitos, tanto quanto ele.

Um triste cenário, para um país que precisava de união e serenidade, de modo a devolver a tranquilidade necessária para a retomada dos investimentos e a volta do crescimento econômico, para não diz da paz institucional.

Mais que a previdência, há um outro sistema no Brasil já falido e que representa uma ameaça real e imediata ao país - o sistema prisional, onde se encontra a chave para enfrentamento da violência e do crime organizado no país. Com a terceira maior população carcerária do mundo, estimada em 727 mil presos em 2016, somente atrás dos Estados Unidos e da China, o Brasil apresenta outros números ainda mais alarmantes.

O número de presos no Brasil cresce a uma taxa média de 8% ao ano - o que indica uma falência já configurada e que deve se agravar ano a ano. Existem hoje cerca de 586 mil mandados de prisão em aberto. Isso quer dizer que, se a polícia prendesse todos que estão sob sua mira, a população carcerária do Brasil imediatamente quase dobraria.

"O sistema não é sustentável, tanto orçamentária quanto fisicamente", afirmou o ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública, Raul Jungmann, em uma palestra para uma seleta plateia de convidados na Fundação Henrique Cardoso, na tarde de quinta-feira passada. "Como vamos, em 2025 teremos no Brasil 1,4 milhão de presos - uma Porto Alegre."

As manifestações de rua, as investigações sobre as contas da família e o destempero verbal não seriam tanta ameaça para o presidente Jair Bolsonaro se, como ocorre com Donald Trump nos Estados Unidos, a economia andasse às mil maravilhas. Pior: no caso brasileiro, a economia só voltará a andar se o governo demonstrar um pouco de equilíbrio e estabilidade - tudo o que lhe faltou em cinco meses de ação.

Quarta, 08 Maio 2019 00:08

Um tiro na legitimidade de Bolsonaro

Com o decreto em favor da difusão da venda e porte de armas no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro avança na sua agenda particular sem ter avançado na agenda coletiva - especialmente a criação de empregos. É a agenda da maioria, e não a do reduzido grupo ideológico com que ele começou sua campanha eleitoral, que lhe deu os votos da eleição e a legitimidade para governar. 

Sexta, 03 Maio 2019 11:30

Jô Soares ainda olha para os outros

Depois de publicar o segundo volume de suas memórias, O Livro de Jô, o multihomem Jô Soares resolveu contar histórias de sua vida no palco do teatro Faap, no espetáculo O Livro ao Vivo, de quinta a domingo. Sentado diante da plateia, usando apenas o seu magnetismo pessoal como instrumento, ao lado do jornalista Matinas Suzuki Jr como um "entrevistador", é o mesmo Jô de sucesso garantido: o Jô do teatro, do cinema, das entrevistas e das colunas na imprensa, com inteligência aguda, virtude cada vez mais rara, tão rara quanto fundamental.

Sexta, 26 Abril 2019 15:25

Bolsonaro e as vãs filosofias

O presidente Jair Bolsonaro escreveu em seu Twitter na sexta-feira que o governo deverá abandonar as faculdades públicas de filosofia e sociologia.

O motivo seria "ficar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina".

"A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta", escreveu.

É um clássico da história política o momento em que o soberano, ao receber uma má notícia, ou para evitar que ela se espalhe, manda matar o mensageiro.

Não é fácil ser mensageiro.

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes de suspender reportagens dos sites Crusoé e Antagonista, sob pena de multa diaria de 100 mil reais, é desse naipe. Diante da má notícia, desconta no veículo da notícia.

Quarta, 10 Abril 2019 21:29

O fim da objetividade

Quem navega pela internet hoje se vê diante não de fatos, entendidos como acontecimentos sobre os quais não cabe interpretação, mas de múltiplas versões sobre fatos, previsíveis de acordo com quem os descreve ou analisa.

Basta olhar os títulos das reportagens na primeira página dos portais. Mesmo com relação a fatos supostamente objetivos, há abordagens subjetivas que podem levar a conclusões opostas sobre um acontecimento ou situação.

Por exemplo, para o Globo,  “em 100 dias Bolsonaro cumpre mais promessas que Dilma e Temer no mesmo período”.

Para a Folha de S. Paulo/UOL, “Bolsonaro cumpriu apenas 13 das suas 35 propostas [nos 100 dias]”

Além do noticiário jornalístico, mais sujeito que nunca a escolhas conforme a política editorial de cada veículo, os portais  encheram seu espaço com um articulismo onde o fato é produto da opinião, e não o contrário.

Espera-se não o conteúdo, mas a versão já previamente esperada daquele conteúdo.

Exemplos:

"Governo não tem um projeto nacional para o Brasil" (de Marco Antônio Villa, comentarista da Jovem Pan).

"Falta ao Brasil política de saúde digna desse nome" (do médico Drauzio Varella).

"Infantil, a esquerda brasileira está perdida" (do ex-ministro Delfim Netto)

São 8:15 da manhã da segunda-feira, dia 24, e há bastante movimento ao redor da longa mesa de café da manhã na Figueira Rubayat, restaurante dos Jardins, em São Paulo, onde a fina flor come os melhores bifes da cidade sob a gigantesca árvore que lhe dá o nome. Ao fundo do restaurante, a mesa do café da manhã está cercada pelos profissionais de relações governamentais, reunidos pela sua entidade, a Abrig, para um encontro com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ele mora ali perto e chega para o compromisso a pé.

Com o fenótipo de um Clark Kent à brasileira, óculos de aro de tartaruga que dão mais leveza, Salles conversa com os lobistas sem pressa, até a hora de entrar no salão de eventos. Entronizado numa área do governo sujeita ao constante patrulhamento político de ONGs e outras forças mercuriais, e dentro de um governo marcado pela forte oposição ao seu posicionamento ideológico, ele faz um discurso na medida para colocar a ideologia de lado.

A crise política instalada em Brasília, com o impasse entre o Executivo do presidente Bolsonaro e o Legislativo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é o resultado de uma peculiaridade da política brasileira, na qual a esquerda ou a direita vêm ganhando as eleições majoritárias, mas somente o Centro é quem governa, não importa o lado vencedor.