17 Jun 2019
Thales Guaracy

Thales Guaracy

Foi editor de política e assuntos nacionais da revista Veja, editor executivo do Grupo Exame, editor sênior de O Estado de S. Paulo, diretor editorial e responsável pelo lançamento no Brasil da revista Forbes, entre outras publicações. Foi ainda diretor editorial da Saraiva para a publicação de livros de ficção e não ficção, criador do selo e do Prêmio Benvirá de Literatura. Ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo Político e de 12 prêmios Abril de Jornalismo, pertenceu ao corpo de jurados do Prêmio Esso de Jornalismo e do Prêmio Petrobras de Jornalismo.

Como autor, publicou livros de reportagem como O Sonho Brasileiro - Como Rolim Amaro Construiu a TAM e sua Filosofia de Negócios; A Conquista do Brasil: 1500-1600; A  Criação do Brasil: 1600-1700; e Eles Me Disseram – As ideias e valores de 21 brasileiros de sucesso, além de mais uma dezena de obras de ficção e não-ficção.

Chamou a atenção a participação do general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, no último café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, promovido pelo presidente Jair Bolsonaro.

Depois de Bolsonaro lamentar uma entrevista dada por Lula na cadeia, na qual o ex-presidente insinuou que a facada em Juiz de Fora poderia ter sido uma armação, Heleno tomou a palavra e fez um discurso inflamado, chegando até mesmo a bater na mesa.

"A presidência da República é uma instituição sagrada", afirmou Heleno. "[...]Um presidente da República desonesto tinha que tomar uma prisão perpétua. Isso é uma canalhice típica desse sujeito. [...] Eu tenho vergonha de um sujeito desse ter sido presidente da República."

O vazamento pelo site The_Intercept de áudios gravados com o ministro Sérgio Moro, nos seus tempos de juiz, revela apenas uma coisa: as intenções da imprensa tendenciosa.

Sexta, 31 Maio 2019 22:29

O azar de ser o presidente

O presidente Jair Bolsonaro afirmou que a cadeira do Palácio do Planalto é sua "kriptonita". Bolsonaro sabe o que diz, melhor que ninguém.

Na ficção, kriptonita é o mineral vindo do planeta Kripton, que na Terra enfraquece o Super-homem. A matéria que enfraquece o presidente, porém, é deste planeta mesmo.

A razão pela qual o ministro da Justiça Sérgio Moro queria ficar com o Controle de Atividades Financeiras (Coaf), hoje no Ministério da Economia, é a mesma pela qual ninguém mais queria. Com o Coaf, ele poderia fiscalizar melhor as atividades do governo, incluindo as do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do chefe, o presidente Jair Bolsonaro, que não apenas deixou Moro sozinho nesta briga, como trabalhou em silêncio para que ele saísse perdendo.

Segunda, 20 Maio 2019 14:33

A política para acobertar o crime

Num mundo cheio das falácias do meio digital, caberia aos esclarecidos colaborar para que fossem sepultadas. E hoje o Brasil enfrenta um único e verdadeiro inimigo: o encantamento das serpentes, que é o acobertamento do crime por meio da política, turbinada pelas redes sociais.

O grande princípio que norteou e trouxe sucesso à Lava Jato, aceito pelo Supremo Federal e a Justiça de forma geral, é o fato de que o crime do colarinho branco nunca deixa digitais. Usa laranjas e outros expedientes para colocar um anteparo entre o mentor e beneficiário do crime e o crime propriamente dito.

A Lava Jato só pega essa gente graúda porque usa outros instrumentos, como a delação premiada - testemunho também é prova. Isso porque pela primeira vez na história brasileira tem o objetivo de pegar os mandantes, e não a peãozada.

Assim foi com Lula, que tinha propriedades em nome de amigos, contas em nomes de outras pessoas, e ainda usava seu poder de encantar as massas para fazer pressão sobre o poder público. Dizia que não existiam provas, porque não há as digitais, e convocava a militância para as ruas, querendo fazer parecer perseguição política o que era apenas um processo criminal.

Ao convocar a manifestação de 26 de maio, o presidente Jair Bolsonaro segue o mesmo caminho. Começa a aparecer no seu rastro um grande laranjal. Sua ex-mulher, Ana, e outros parentes foram detectados como funcionários fantasmas que devolviam o dinheiro do salário ao filho, Flávio Bolsonaro, por meio de Fabrício Queiroz - a prática da chamada "rachadinha"

O Ministério Público viu aí uma "organização criminosa", que explorava sistematicamente esse esquema para arrecadar . Investiga ainda as relações de Flávio com as milícias, pela proximidade com o Capitão Adriano e o fato de enriquecer negociando imóveis - uma das áreas onde atuava o Escritório do Crime, do capitão hoje foragido da polícia, suspeita ainda de envolvimento na morte da vereador Marielle Franco.

Pior: o presidente, que tinha a ex-mulher no esquema, além de outros funcionários que fantasmagoreavam tanto no seu gabinete quanto no de Flávio, parece indissociável da investigação sobre o filho. A "organização" dos Bolsonaro, pelo que verificou o MP, é uma coisa só.

Ao querer agora associar a investigação a um ataque político, tanto do Congresso quanto do STF, Bolsonaro faz exatamente como Lula. Procura jogar uma cortina de fumaça sobre uma investigação criminal.

"Não vão me pegar", bradou ele, ao seu estilo. Talvez mostrasse mais virilidade se fizesse passar os projetos no Congresso, em vez de se mostrar reclamando do sistema e tão preocupado com a própria sombra, atirando até mesmo nos próprios colaboradores.

O Congresso foi eleito de forma tão legítima quanto Bolsonaro. Sua resposta às iniciativas do governo tem também a legitimidadde da delegação popular. Não adianta reclamar de uma emparedamento. Se o governo Bolsonaro está parado, é mais por seus próprios erros. E não adianta culpar os outros.

Nós já sabemos como acabam essas histórias. Para a Lava Jato, não importa que o dinheiro entrou nos gabinetes dos Bolsonaro na forma de depósitos à vista de origem indeterminada. Nem que o operador seja Fabrício Queiroz. Eles têm os instrumentos, hoje em dia, para chegar ao mandante. Os Bolsonaro sabem disso, Por isso, o presidente já coloca na rua sua máquina de pressão, a pretexto de estar sendo vítima do "sistema".

O Congresso não é um ninho de anjos, é verdade. Porém, o "sistema" tambem foi feito para conter descalabros e colaborar para a investigação de crimes de um poder pelo outro. É o republicanismo, de que Bolsonaro tanto fala, e seu pleno funcionamento.

Ao acusar o Congresso de golpismo, Bolsonaro não quer contestar ou purificar o sistema, como alega. Quer apenas salvar a sua própria pele. Ou arriscar seu próprio golpe. E jogar a população contra oura Casa onde os integrantes foram eleitos, tanto quanto ele.

Um triste cenário, para um país que precisava de união e serenidade, de modo a devolver a tranquilidade necessária para a retomada dos investimentos e a volta do crescimento econômico, para não diz da paz institucional.

Mais que a previdência, há um outro sistema no Brasil já falido e que representa uma ameaça real e imediata ao país - o sistema prisional, onde se encontra a chave para enfrentamento da violência e do crime organizado no país. Com a terceira maior população carcerária do mundo, estimada em 727 mil presos em 2016, somente atrás dos Estados Unidos e da China, o Brasil apresenta outros números ainda mais alarmantes.

O número de presos no Brasil cresce a uma taxa média de 8% ao ano - o que indica uma falência já configurada e que deve se agravar ano a ano. Existem hoje cerca de 586 mil mandados de prisão em aberto. Isso quer dizer que, se a polícia prendesse todos que estão sob sua mira, a população carcerária do Brasil imediatamente quase dobraria.

"O sistema não é sustentável, tanto orçamentária quanto fisicamente", afirmou o ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública, Raul Jungmann, em uma palestra para uma seleta plateia de convidados na Fundação Henrique Cardoso, na tarde de quinta-feira passada. "Como vamos, em 2025 teremos no Brasil 1,4 milhão de presos - uma Porto Alegre."

As manifestações de rua, as investigações sobre as contas da família e o destempero verbal não seriam tanta ameaça para o presidente Jair Bolsonaro se, como ocorre com Donald Trump nos Estados Unidos, a economia andasse às mil maravilhas. Pior: no caso brasileiro, a economia só voltará a andar se o governo demonstrar um pouco de equilíbrio e estabilidade - tudo o que lhe faltou em cinco meses de ação.

Nas últimas semanas, o advogado André Marsiglia de Oliveira Santos, do escritório Lourival Santos Advogados, apareceu em destaque nos portais de notícias graças a uma tão grave quanto inopinada decisão do Supremo Tribunal Federal: a suspensão das reportagens pelos sites Crusoé e O Antagonista, que faziam menção ao presidente do tribunal, Dias Toffoli, colocado como alvo nas investigações da Lava Jato. Defensor de O Antagonista, André veio a público denunciar a censura por parte do STF. Venceu a batalha: Toffoli acabou voltando atrás.

Ainda assim, o perigo continua. "Muito por conta da internet, os poderes vêm se preocupando em uma regulamentação prévia da opinião", diz André. "Isso é muito ruim - e inconstitucional." Chama a atenção que o presidente do STF, supostamente a instituição defensora das liberdades e da Constituição, continue a agir não apenas em favor da censura, como em causa própria. "A lei serve independentemente da classe alvejada pela censura - se o cidadão escreveu no Facebook ou uma autoridade", afirma ele. "Isso preocupa, a partir do momento em que o poder, como força, sai regulando a manifestação de quem quer se seja. Ainda mais no caso do Judiciário, que sai atuando como espada, e não como balança."

Quarta, 08 Maio 2019 00:08

Um tiro na legitimidade de Bolsonaro

Com o decreto em favor da difusão da venda e porte de armas no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro avança na sua agenda particular sem ter avançado na agenda coletiva - especialmente a criação de empregos. É a agenda da maioria, e não a do reduzido grupo ideológico com que ele começou sua campanha eleitoral, que lhe deu os votos da eleição e a legitimidade para governar. 

Sexta, 03 Maio 2019 11:30

Jô Soares ainda olha para os outros

Depois de publicar o segundo volume de suas memórias, O Livro de Jô, o multihomem Jô Soares resolveu contar histórias de sua vida no palco do teatro Faap, no espetáculo O Livro ao Vivo, de quinta a domingo. Sentado diante da plateia, usando apenas o seu magnetismo pessoal como instrumento, ao lado do jornalista Matinas Suzuki Jr como um "entrevistador", é o mesmo Jô de sucesso garantido: o Jô do teatro, do cinema, das entrevistas e das colunas na imprensa, com inteligência aguda, virtude cada vez mais rara, tão rara quanto fundamental.

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