3 Jun 2020
Thales Guaracy

Thales Guaracy

Foi editor de política e assuntos nacionais da revista Veja, editor executivo do Grupo Exame, editor sênior de O Estado de S. Paulo, diretor editorial e responsável pelo lançamento no Brasil da revista Forbes, entre outras publicações. Foi ainda diretor editorial da Saraiva para a publicação de livros de ficção e não ficção, criador do selo e do Prêmio Benvirá de Literatura. Ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo Político e de 12 prêmios Abril de Jornalismo, pertenceu ao corpo de jurados do Prêmio Esso de Jornalismo e do Prêmio Petrobras de Jornalismo.

Como autor, publicou livros de reportagem como O Sonho Brasileiro - Como Rolim Amaro Construiu a TAM e sua Filosofia de Negócios; A Conquista do Brasil: 1500-1600; A  Criação do Brasil: 1600-1700; e Eles Me Disseram – As ideias e valores de 21 brasileiros de sucesso, além de mais uma dezena de obras de ficção e não-ficção.

A delação do empresário Paulo Marinho, cujo depoimento à Polícia Federal indica que os Bolsonaro sabiam antes da deflagração da Operação Furna da Onça, é mais importante do que simplesmente acrescentar um dado relevante às investigações sobre a tentativa do presidente de proteger-se de forma indevida, seja na corrida eleitoral, seja dentro do governo.

Marinho foi um colaborador fundamental de Bolsonaro, não só por colocar sua casa como quartel-general político na corrida eleitoral, como pela sua participação na inteligência de campanha e no aliciamento de apoio empresarial.

Representa o grupo de empresários que apostou em Bolsonaro, como garantia de que o Brasil não voltaria atrás, devolvendo o poder a Lula e o PT. Bolsonaro foi seu trunfo para garantir ganhos passados, que poderiam ser cobrados de volta num novo governo populista de cunho socializante, agora que o Estado brasileiro se encontra na penúria, após a enorme transferência de recursos para o setor privado pelo estímulo ao consumo.

Ao voltar-se contra o homem que ajudou a inventar, a clássica história do criador tentando controlar a criatura, Marinho indica que a verdadeira base de apoio ao presidente - a elite predatória que colocou Paulo Guedes como garantia de que ele cumpriria os termos do acordo para sua eleição - está abandonando o barco.  Essa, sim, é uma má notícia para o presidente.

Segunda, 11 Maio 2020 16:15

A comunicação destrói uma gestão

Os integrantes do governo Jair Bolsonaro, a começar dele mesmo, são especialistas em atrair a antipatia geral, mesmo quando têm bons planos ou boas intenções. São caso exemplar de comunicação ruinosa, que vale a pena ter como parâmetro, mas do que não se pode fazer. Assim como na gestão privada, há governos que servem como "cases" de comunicação que, associada a decisões equivocadas, produzem o efeito contrário ao desejado, arruinam a imagem, desestabilizam a liderança e minam a própria gestão.

Nesta segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro recebeu no Palácio do Planalto o tenente-coronel reformado do Exército Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o "Major Curió". Denunciado seis vezes pelo Ministério Público Federal por participação nos assassinatos e sequestros de guerrilheiros de esquerda no Araguaia, nos anos 1970, Curió tem hoje 85 anos. A foto, colocada nas redes sociais por um de seus filhos, veio com a legenda "Dia de de dois amigos se encontrarem e dizer Força".

Domingo, 03 Maio 2020 20:30

A última ceia do governo Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro chamou seu ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, de "Judas". Como dizem as escrituras, Judas era o apóstolo favorito de Jesus, mas justo esse foi também aquele que o traiu. Não se sabe se Moro irá se arrepender, como Judas, que se enforcou. O presidente, porém, já tem a sensação de que está sendo enviado para a cruz.  

Segunda, 27 Abril 2020 18:03

Guedes é garantido, mas há obstáculos

No comitê de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, na sexta-feira passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi uma figura destoante do conjunto - enquanto todos os ministros vestiam-se formalmente, ele estava sem paletó, com uma máscara anti-Covid, e sem sapatos, inidcação de que os teria deixado por norma sanitária na porta. A imagem sugeria um ministro já deslocado, ou, por outro ângulo, o único certo. Nesta segunda-feira, após reunião com Guedes, o presidente Jair Bolsonaro diz que ele fica no governo"O homem que decide economia no Brasil é um só, chama-se Paulo Guedes", disse o presidente, após encontro no Palácio da Alvorada. "Ele nos dá o norte, nos dá as recomendações e o que nós realmente devemos seguir."

Sim, Guedes fica. Mas, no governo Bolsonaro, a questão é saber até quando - e como.

Quinta, 23 Abril 2020 14:51

O Brasil flerta com o autoritarismo

O Brasil assiste hoje o crescimento de um movimento ainda pequeno em número, embora barulhento, de gente que pede um regime autoritário no país. A maior ameaça autoritária, porém, não vem daí. Ela passa pelo enfraquecimento geral da democracia brasileira, da qual o presidente Jair Bolsonaro, com suas ideias, sua postura, seu comportamento e seus seguidores à beira do fanatismo político, é apenas o sintoma mais visível.

Quarta, 15 Abril 2020 18:20

Rubem Fonseca deixa sua grande arte

Ao morrer, aos 94 anos, o escritor Rubem Fonseca deixa a sua grande arte. Melhor simbolizada pelo romance com esse título, de 1983, a obra que reúne suas melhores qualidades, Fonseca marcou toda uma geração de escritores e leitores por fazer ao mesmo tempo um gênero popular - o policial - com alta qualidade literária.

Trazia para as histórias policiais algo do refinamento do conhecimento - no caso de A Grande Arte, a do uso da faca - e uma profundidade inédita num gênero que, no passado, visava apenas entreter. Em A Grande Arte, o tema pro trás do tomance é a ciência da vingança.

Os personagens de Fonseca eram profundos, quase existencialistas. E seus dilemas sobressaíam ao crime, que ressaltava, pela sua natureza extrema, as preocupações existenciais.

Ele foi também um escritor ligado ao Brasil e à história brasileira. Seu romance mais ambicioso, Agosto, tem como pano de fundo o fim da vida de Getúlio Vargas - e a degradação, que é da política, refletida em seu personagem principal.

Sua obra foi das primeiras a retratar o crescimento exponencial da violência, no tempo ainda da ditadura militar, em que expôr esse tipo de coisa era considerado caso de segurança nacional. O conto Feliz Ano Novo, onde a ultraviolência é o tema central, é o grande marco que abriu caminho para o tema no país.

O livro chegou a ser proibido em 1974 pelo então ministro da Justiça, Armando Falcão, sob a alegação de que continha material contrário "à moral e os bons costumes".

Nos últimos livros, Fonseca pareceu repetir-se um pouco, preso ao estilo e às mesmas fórmulas narrativas que o tornaram célebre. Ainda assim, está entre os maiores escritores de sua geração, e pode ser considerado um dos maiores romancistas contemporâneos do Brasil, não importa o gênero. Foi mestre numa gênero difícil - o conto, a história curta - onde conseguia precisão e grande impacto. E trouxe a literatura brasileira para o cenário urbano, após gerações que retratavam mais o sertanejo.

Nascido em 1925 na cidade mineira de Juiz de Fora, José Rubem Fonseca viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Era considerado recluso, por recusar-se a dar entrevistas, mas era uma pessoa cordial e personagem carioca. Fazia caminhadas pelo Leblon, de boné e óculos escuros.

Advogado de formação, trabalhou como comissário de polícia no 16º Distrito Policial, em São Cristóvão, e cuidava do trabalho de relações públicas. Estudou com outros policiais cariocas nos Estados Unidos, entre setembro de 1953 e março de 1954, e fez administração de empresas na New York University.

Sem jamais ter sido policial de rua, juntou ali as histórias que o inspirariam na carreira como escritor, iniciada depois de sua exoneração, em 6 de fevereiro de 1958. Trabalhou na Light e começou a escrever.

O esforço desesperado do presidente Jair Bolsonaro em fazer as coisas voltarem ao que eram antes, indo contra o próprio ministério, o círculo de militares, a Justiça, os governadores e a maior parte da opinião pública, mostra não apenas que ele perdeu o controle do próprio governo, se é que um dia realmente o teve. A pandemia do coronavírus tirou do presidente a autoridade e ainda levou de roldão aquilo com que ele mais contava para concluir bem seu mandato: o projeto econômico liberal, tocado pelo ministro Paulo Guedes.

É difícil para o presidente aceitar, mas, ainda que ele suspendesse o isolamento domiciliar e ninguém mais ficasse doente por milagres da hidroxicloroquina, o mundo para o qual ele quer rapidamente voltar já não existe. Bolsonaro ficou sem plano e sem propósito. Ou o governo arruma outro plano para o resto de seu mandato, ou o plano terá de arrumar outro governo.

Sexta, 10 Abril 2020 22:57

Bem vindos ao meu mundo

Bem vindos ao meu mundo. Eu sabia que um dia o estilo de vida dos escritores, tão decantado no período em que eles saem a beber, dizer besteiras e fazer enormidades, mostraria seu outro lado: o da vida de toupeira, enfiado num escritório, com a cabeça dentro de um laptop.

Escritores são, na maior parte do tempo, trabalhadores domésticos. Estou acostumado a longos períodos dentro de casa. Dias a fio, semanas, meses. Escritores vivem periodicamente quarentenas voluntárias. E bem. Por isso, a vida hoje não está muito diferente para mim. E talvez a minha experiência possa ajudar outros a conviver melhor com o isolamento.

Sexta, 03 Abril 2020 15:36

O gigante de papel

A última entrevista de Paulo Francis - e sua história

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