6 Jun 2020
Hugo Studart

Hugo Studart

Hugo Studart, editor de A República em Brasília, é jornalista, professor e doutor em História. Trabalhou como repórter investigativo, editor ou colunista nos maiores veículos do país, como os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo; revistas Veja, Manchete e Dinheiro. Atuou como diretor e colunista da IstoÉ, além de editor-chefe da revista Desafios do Desenvolvimento, do Ipea. Colaborou com artigos, colunas ou ensaios em veículos como Exame, Imprensa e Brasil História; e com artigos de opinião para O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Ganhou diversos prêmios de jornalismo, como o Prêmio Esso e o Abril, além do Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos.

Como professor, atua como pesquisador-associado do Núcleo de Estudos da Paz e dos Direitos Humanos da Universidade de Brasília e na Pós-Graduação em Ciência Política na Faculdade Upis. Lecionou Jornalismo no Instituto de Ensino Superior de Brasília, na Fundação Casper Líbero, São Paulo, e na Universidade Católica de Brasília; além de MBA em Relações Institucionais do Ibmec. É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.

Quarta, 13 Junho 2018 14:28

A seleção e as flores para os mortos

Começa uma nova Copa do Mundo e, para muitos, a vida permanece presa em seleções do passado. Essa que você pode ver no vídeo abaixo, uma alma-coletiva fundamentada nas genialidades de Zico, Sócrates e Falcão, de fato é memorável. Certa feita, observou o escritor William Faulkner que “o passado nunca está morto, nem sequer é passado”. Mas devemos viver dentro das possibilidades do presente, sob pena da ausência desses entes queridos acabar se tornando uma constante presença.

O filósofo francês Paul Ricœur, que enfrentou ao longo de toda a juventude a dor da ausência do pai, estudou esse fenômeno. Está em Platão o primeiro registro dessa questão. Ricœur foi buscar em um dos diálogos de Sócrates, O Teeteto, inspiração para tratar da imagem-recordação (eikôn) a fim de sublinhar um grande paradoxo. Qual seja, o de que o eikôn é a “presença na ausência”, é a presença na alma do homem de uma coisa ausente. A esta característica da memória, Aristóteles contribuiu com outra: existe na memória uma linha de fronteira entre a imaginação e o phantasma.

O conceito da “presença na ausência” é distinto do sentir falta. O português guarda o termo “saudade” para expressar essa sensação de faltar. A saudade, o sentir falta, relaciona-se à nostalgia, que tanto pode provocar alegria, quanto melancolia. Na saudade, pode haver a sensação de que algo está errado. No caso, uma mãe falecida em decorrência de uma doença que poderia ter sido tratada, ou de um filho levado prematuramente, pode até mesmo haver o inconformismo com os desígnios do Destino.

Como no caso dos desaparecidos políticos, por exemplo – fenômeno que estudo como historiador – resta nos familiares a sensação do ilicitamente subtraído. É como se fosse um roubo. O vazio se apropria das famílias, as questões emocionais ficam eternizadas e, sem respostas, a dor passa a ser rotina. O mesmo pode acontecer com casais, quando um deles se vai sem explicar as razões, sem fazer a necessária catarse, sem enterrar de forma adequada a história – restando no outro a mesma sensação do ilicitamente subtraído.

A “presença na ausência” está relacionada à memória como recordação. A ausência é “presentificada” pelas boas lembranças. Vejam o caso da seleção de imagens daquele grupo de 1982.

Observem que o editor só selecionou os lances memoráveis, os melhores momentos – de forma a evitar uma avaliação equilibrada do passado.

Aquela seleção tinha alma coletiva, não restam dúvidas. Contudo, perdeu a Copa. E daí? Fato é que elevou aos píncaros do Olimpo o conceito do Futebol Arte. Deixou saudades. Então no agora, quando a Copa de 2018 se inicia, muitos de nós ficam a recordar do Futebol Arte dos tempos de Zico, Sócrates e Falcão, estagnando as emoções no outrora e se prendendo ao fenômeno da presença na ausência.

Mas estamos diante de tantas outras possibilidades... Neymar não é como Zico, pensamos nós. É verdade. Mas Zico não era como Pelé, nem Sócrates conseguiria ser como Neymar.

Precisamos enterrar os mortos, deixar o cemitério e exorcizar os fantasmas. Devemos, sobretudo, abrir nossos corações para esses garotos (igualmente geniais) que, tudo indica, conseguiram, sob a batuta Tite, forjar uma nova alma-coletiva.

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