21 Jul 2019
Barlaeus

Barlaeus

Cronista, historiador, romancista e humanista republicano e democrata desde o império romano

Terça, 23 Abril 2019 14:25

O espantalho de Bolsonaro

Quando escolheu para vice de sua chapa o general Hamilton Mourão, o presidente Jair Bolsonaro brincou, bem ao seu estilo, que o colocara no posto porque se eleito ninguém iria querer levantar contra ele um processo de impeachment. Todos teriam medo de ver entrar no seu lugar, como um espantalho, o então polêmico general.

A decisão foi um tiro pela culatra. Desde a campanha, e depois no governo, Mourão deixou de ser piada. Mostrou-se um político leve e desenvolto, com muito mais cintura que o próprio Bolsonaro.

Circula entre os políticos que o próprio presidente rejeita, fala sem problemas com toda a imprensa, que Bolsonaro boicota, e defende um governo mais ao centro, próximo do Congresso, técnico ou profissional, enquanto o titular do Planalto faz questão de empurrar adiante sua faceta ideológica mais agressiva, contra a maioria pacífica e mais civilizada do país.

Ao agarrar-se demais às suas antigas ideias, que se misturam às do guru Olavo de Carvalho, Bolsonaro acabou isolando-se no governo. E viu o espantalho que plantou para assustar os políticos passar a assustar ele mesmo.

Enquanto o próprio  Bolsonaro convive agora com a imagem de um governante com pouco conhecimento de causa, meio desastrado e até agora inoperante, Mourão é o homem que tenta ajudar, contrabalançando o governo com um pouco de objetividade, simpatia e bom senso.

Um princípio básico do regime democrático é que o governante é eleito para fazer não o que ele quer, mas o que o povo quer que ele faça.

Todo político tem seus projetos pessoais, ideais e ideias, mas não pode colocá-los na frente da vontade da maioria. Dessa forma, tende a isolar-se, perder legitimidade e, no limite, o próprio poder.

É o que está acontecendo com o presidente Jair Bolsonaro, cuja opção por seguir apenas a si mesmo colocou para andar a galope um processo de deslegitimação do governo que pode atirá-lo fora do Palácio do Planalto.

Terça, 09 Abril 2019 11:18

Os cães vestidos como homens

"Desejo toda sorte do mundo ao ministro Weintraub, e só advirto: se aparecer algum Croquetti dando palpite, esconda-se no banheiro", escreveu no Twitter Olavo de Carvalho.

O mentor intelectual da extrema direita adotado pelos Bolsonaro aconselhou assim Abraham Weintraud, que entrou no Ministério da Educação no lugar de Ricardo Vélez, olavista defenestrado após três meses de turbulências cotidianas, para fazer o mesmo papel que seu antecessor - se possível, melhor.

"Croquetti" é uma referência ao coronel aviador Ricardo Roquetti, ex-assessor especial de Vélez, que teria perseguido e afastado membros do olavismo da pasta para instalar seu próprio pessoal. E contém um trocadilho com Fido Gabriel Croquetti, pseudônimo de um artista satírico que coloca cachorros no lugar de personagens de quadros clássicos.

Carvalho refere-se a inimigos ideológicos, que para ele são como cães, mas a imagem bem poderia servir também para ele, que reveste de uma suposta erudição um comportamento de viralata, o cachorro sem estirpe, nem educação.

Quarta, 27 Março 2019 13:48

Bolsonaro fica com cara de Jânio Quadros

Era uma vez um presidente que se elegeu com promessas de acabar com a corrupção no Brasil. Entrou no governo com enorme apoio popular. Governava mandando recadinhos informais para politicos e colaboradores do governo, preterindo a imprensa e os meios oficiais de comunicação. Sem conseguir passar nada no Congresso, onde bateu recordes de rejeição, seu governo ficou paralisado.

Você pode achar tudo isso muito contemporâneo e familiar, mas estamos falando de Jânio Quadros, no ano de 1961. Dono de um estilo controverso, com seus famosos bilhetinhos, a versão da época do Twitter, Jânio conseguiu rapidamente construir uma parede de oposição no meio político e dentro da sua  própria administração, criando desafetos por todos os lados.

Acabou renunciando, na esperança de que o clamor popular o fizesse voltar de novo ao governo e com mais força para impôr-se diante do Congresso.

Segunda, 18 Março 2019 22:20

Steve Bannon, o Goebbels da era digital

A proximidade do presidente Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo com Steve Bannon, ex-guru no marketing digital de Donald Trump, é tão significativa quanto a de Olavo de Carvalho, o aiatolá da direita, incensado pelo filho do presidente e que nutre com o governo uma relação de amor e ódio, conforme sua ciclotimia.

Quinta, 14 Março 2019 20:17

A catástrofe nossa de cada dia

Nos últimos tempos, vivemos com a permanente sensação de que a desgraça está na nossa porta. Todo dia acontece alguma coisa trágica. Ou várias.

Dois estudantes mataram colegas numa escola na Grande São Paulo. No dia seguinte, quatro atiradores matam 50 pessoas e ferem outras tantas em mesquitas da... Nova Zelândia.

Não foi só isso. Fiquei sabendo também que morreram milhões de abelhas no Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul, por conta da dedetização. Isso é um grave dano ecológico, porque a produção de alimentos depende - e muito - da polinização.

Tá fácil?

Todo dia, parecemos à beira da catástrofe. Quando não é tragédia, é fofoca. Sabemos tudo e da vida de todos. Você viu que a Luana Piovani se separou do marido? A briga de Neymar e Marquezine no carnaval por causa da Anitta? E olha que isso nem parece novidade.

E o governo, então? Parece a novela das oito. Todo dia, ficamos sabendo quem passou a perna em quem. Cada disparo do presidente no Twitter é uma crise nacional. Esse Olavo está todo dia no Youtube xingando alguém.

Na imprensa, não existe mais a manchete do dia. É a manchete do minuto. Será que precisamos saber de tudo? 

Será que o mundo sempre foi cheio de problema assim ou nós é que agora demos pra ficar sabendo de tudo o tempo todo, só porque a internet não gasta papel?

O fato é que a transformação do noticiário num rosário de infortúnios em tempo real acaba sendo estressante. E vai virando vício. É de pirar. 

Chego a sentir saudade do tempo em que a gente ficava sabendo das coisas só às oito da noite, pelo Jornal Nacional. Ou no dia seguinte, pelo jornal impresso. O mundo não acabava. Esperava pelo menos o dia seguinte pra acabar.

Pior ainda é a discussão posterior. Além da notícia, surgem os milhões de comentários. Somos bombardeados com as ideias alheias.

Se você não fala nada, passa por morto. Se fala qualquer coisa, leva  de volta uma saraivada de balas. O patrulhamento virtual faz parte desse sistema demoníaco para nos deixar com os nervos à flor da pele.

Resolvi que não dá para continuar assim. Já arrumei um pedaço de pau, vou para Compostela fazer a caminhada do desapego.

Não estranhem se no próximo mês eu não responder ao celular.

Segunda, 11 Março 2019 18:25

O efeito Olavo no governo Bolsonaro

Um velho ditado da política diz que o poder é como o violino: se toma com a esquerda, mas se toca com a direita.

O presidente Jair Bolsonaro fez o caminho inverso de Lula para chegar ao Planalto: tomou o poder com a direita. E deveria agora governar com a mão esquerda, para também ampliar sua base de apoio no Congresso, aproximar-se da média no espectro político, azeitar a passagem de seus projetos e ganhar mais legitimidade, como o presidente não apenas da fatia do eleitorado que o elegeu, como de todos os brasileiros.

Quinta, 28 Fevereiro 2019 13:28

O erro que não foi de Vélez

O ministro da educação, Ricardo Vélez, foi espinafrado do Oiapoque ao Chuí pela famosa comunicação em que pede às escolas a leitura de um texto nas escolas, que as crianças cantem o hino nacional e enviem um vídeo ao ministério ou ao Palácio do Planalto. Foi obrigado a retratar-se, retransmitir a carta com cortes e emendas e acabou acumulando mais um pequeno vexame à trajetória ainda curta mas já cheia de incidentes do governo.

Ocorre que o problema maior com a carta de Vélez não é dele. Não há nada de errado em pedir que se cante o hino nas escolas, pelo contrário - ensinar e praticar o hino faz parte da educação cívica que se transmite no ambiente escolar desde sempre. Produzir vídeos com isso, desde que com autorização e de forma voluntária, também não é nenhum absurdo.

Sexta, 22 Fevereiro 2019 22:05

O fim do bananismo e das utopias socialistas

A América Latina não é por acaso o último bastião de resistência das utopias socialistas no mundo. A única razão que explica a sobrevivência extemporânea de ditaduras falsamente socialistas nos países latinos, como Cuba e a Venezuela, é um certo bananismo, determinante do nosso comportamento e, em grande parte, do nosso atraso.

Quarta, 20 Fevereiro 2019 13:21

A Arca de Noé do Planalto

No governo, o presidente Jair Bolsonaro tem se mostrado instransigente no discurso contra a corrupção e os maus costumes da política, marca da sua campanha. É coerente, mesmo quando o malfeito está do seu próprio lado.  Essa política do fuzil, porém, tem feito muitas e importantes vítimas nas próprias fileiras.

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