20 Fev 2020
Barlaeus

Barlaeus

Cronista, historiador, romancista e humanista republicano e democrata desde o império romano

Terça, 03 Setembro 2019 20:49

A bolsa de valores da política

A revolução do meio digital tem provocado uma profunda mudança política na era contemporânea. Ao permitir a informação em tempo real, e assim a fiscalização do poder público também ao vivo e em período integral, a internet viabilizou uma nova forma de democracia participativa, que acaba substituindo a democracia representativa do século XX.

É como se voltássemos aos primórdios da antiga Pólis grega, em que os cidadãos iam para a praça votar, levantando a mão. Esse tipo de consulta democrática acabou se tornando inviável, com o aumento da população e também das decisões de Estado. E a democracia assumiu sua forma representativa, em que alguns são escolhidos para representar ses eleitores nas decisões da esfera pública.

Porém, o fato de cada cidadão agora se transformar num potencial ativista político, participando de grupos de pressão que podem inclusive rapidamente se mobilizar em manifestações de rua, permite a criação de uma nova forma de democracia participativa em larga escala, na qual o poder público tem de dar respostas também de forma direta, o tempo todo, e acaba sendo obrigado a ouvir os movimentos de pressão a cada passo.

Sábado, 24 Agosto 2019 16:48

Liberalismo não é falta de governo

O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou que está estudando trazer de volta a velha CPMF, antigo "imposto do cheque", que incidia sobre todas as operações bancárias. Disse que se o valor for "pequenininho" não fará mal. Fará. Porque qualquer aumento de impostos, num país já exaurido pela crise, não só vai contra o liberalismo pregado por ele, desmoralizando sua proposta, como é algo que o brasileiro já conhece - e sabe que, por achatar ainda mais o cidadão, é outra medida recessiva, que não dará certo ao final.

Há, porém, um lado ainda pior das ideias em voga no governo.

Quinta, 15 Agosto 2019 16:11

Violência e risos

Estreou nos cinemas brasileiros "Era uma vez em Hollywood", filme de Quentin Tarantino, que como sempre traz a marca da ultra-violência, com uma diferença: como em Bastardos Inglórios, brinca com um episódio chocante da vida real.

Quinta, 15 Agosto 2019 14:22

Bandeiras verde-amarelas pouco mudam

As manifestações de rua na última terça-feira, com a bandeira da Educação à frente, mostraram uma novidade de marketing nos movimentos de esquerda: a substituição das bandeiras vermelhas dos partidos como o PT e congêneres pelas bandeiras verde-amarelas, uma marca das manifestações pró-Bolsonaro. Com isso, pretendeu-se tomar literalmente a identificação do bolsonarismo com as causas nacionais e procurar atrair o cidadão comum, o não ativista, deixando para trás o negativismo associado ao desempenho do PT no governo federal.

Funcionou? Nem tanto.

O presidente Jair Bolsonaro sacou do coldre logo no início da semana duas medidas típicas de governos arbitrários: o revanchismo e a perseguição.

O revanchismo é contra  a imprensa. Em um evento numa indústria farmacêutica em São Paulo, Bolsonaro anunciou que assinou na segunda-feira uma medida provisória por meio da qual isenta empresas com ações em bolsas de valores da obrigação de publicar seus balanços por meio da imprensa. "Quero ver se o [jornal] Valor sobrevive a essa", afirmou.

Mais impróprio que interferir por uma decisão autocrática numa norma do mercado de ações, foi o motivo: assumidamente castigar a imprensa, cortando uma de suas fontes de receita. 

"No dia de ontem eu retribuí parte do que grande parte da mídia me atacou", afirmou o presidente. Disse que o empresariado poderá publicar seus balanços no Diário Oficial a custo zero. E ironizou: "Tenho certeza de que a imprensa vai apoiar essa medida."

Já a perseguição se deu em outra área. Nesta terça-feira, a Petrobras enviou um comunicado ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, cancelando um contrato de prestação de serviços na área trabalhista que a empresa tinha com seu escritório de advocacia. Santa Cruz já tinha sido alvo na semana passada de declarações impróprias por parte do presidente, que sugeriu saber como seu pai, Fernando, teria morrido no tempo da ditadura militar.

Com seu estilo populista meio espalhafatoso e caricato, desenvolvido e exercido por meio das redes sociais, os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil vêm prestando um grande desserviço à sociedade.

Cada um no seu palácio, Trump e Bolsonaro transmitem a sensação de que a direita - como se convencionou chamar nos dias de hoje o movimento político conservador -  não passa de um amontoado de ações histriônicas, decisões bizarras e ataques gratuitos a inimigos imaginários. E, assim, tornam a direita tão fantasiosa e ridicula como a esquerda também caricata que anunciam confrontar.

Dessa forma, desmoralizam o que o conservadorismo poderia trazer de bom neste momento - ideias, que, levadas a sério, e não como uma mera encenação de marketing, poderiam colaborar de fato com soluções políticas e econômicas para os problemas contemporâneos, que não são poucos e nem fáceis.

Já era preocupante o fato de o presidente Jair Bolsonaro estar se afastando cada vez mais da ala operacional do governo, incluindo os militares. Agora, ele se afasta da própria realidade, apegado à construção ideológica do mundo como ele o vê. Uma espécie de Doutor Caligari da política.

Para quem nunca viu o filme de Robert Wiene, Caligari é um louco, para quem o mundo distorcido pela própria loucura parece normal. Ao ver o filme pelos seus olhos, o espectador adota sua perspectiva e vai pensando que as coisas são mesmo daquele jeito, distorcidas, quase góticas. Até que se percebe que é apenas o filtro do louco que nos fazia ver assim.

Bolsonaro está ainda na fase de fazer alguns acreditarem que é normal e flerta com a ideia de ampliar sua massa de seguidores fanáticos, com ajuda das redes sociais e pendores para o fascismo. Algo também muito próximo da loucura mais delirante do poder. Mas muita gente vai acordando para a realidade.

O rei vai ficando nu. O último choque que faz acordar o eleitor brasileiro foi a declaração de que ele saberia o destino de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. 

Bolsonaro disse ter informações de que ele teria sido morto não pela ditadura, mas pela "esquerda" - uma deformação da realidade tão flagrante que seria o caso de repúdio geral, não fosse a consternação com o estado mental do presidente.

Sábado, 20 Julho 2019 22:20

Os Bolsonaro são coisa nossa

No último final de semana, o programa Silvio Santos trouxe dois convidados especiais: os filhos do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio e o deputado federal Eduardo. Foram participar do Jogo das Três Pistas, um teste de conhecimento que repete as velhas fórmulas dos programas de auditório do quase nonagenário dono do SBT.

Entre as muitas ironias assombrosas que volta e meia assaltam um país que vai ficando com cara de desastre, o Brasil acaba de assistir ao impensável do impensável.

Graças a uma manobra jurídica do filho do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, a Lava Jato tomou um golpe capaz de paralisar a maioria de suas investigações, jogando no lixo todo o discurso moralizante que elegeu não apenas o titular do Palácio do Planalto como todos os que levam seu sobrenome. 

Quinta, 11 Julho 2019 20:18

A ditadura do Congresso

A notícia de que para aprovar a Nova Previdência os deputados cobraram de 6 a 10 bilhões de reais do Executivo para programas próprios, as tais "emendas" com as quais mantém seus currais eleitorais, é mais um balde de água fria naqueles que acreditavam em alguma mudança na política brasileira após tudo o que aconteceu: a Lava Jato, a prisão de Lula e, por fim, a eleição, não somente de Jair Bolsonaro como supostamente de um novo Congresso.

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