21 Jul 2019
A República

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Em entrevista à revista Veja, o presidente Jair Bolsonaro afirmou estar preocupado com a quebra de sigilo bancário de seu filho Flávio Bolsonaro e explicou sua relação de amizade com Fabrício Queiroz, que operava contas consideradas suspeitas em investigação no Ministério Público do Rio. 

Um dia na vida do presidente Jair Bolsonaro mostra qual é de fato o seu maior talento: o de promotor de confusão.

Tome-se a sexta-feira, dia 31 de maio, como exemplo. 

Em poucas horas, o presidente se meteu nas coisas mais inesperadas. Ao Supremo Tribunal Federal, mandou o recado de que gostaria de ver lá um "ministro evangélico" - ideia absurda, já que o saber jurídico, pré-codição para  cargo, nada tem a ver com a religião. Seria apenas um comentário impensado, não fosse ele, o presidente, encarregado de indicar o nome dos próximos ministros ao tribunal.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro conseguiu criar caso em Anápolis, na beira da estrada, onde parou para almoçar por aber que ali encontraria alguns caminhoneiros - prova de que pode estar nos lugares mais inesperados e causar estragos randomicamente.

Os protestos em favor da Educação, que acabaram sendo misturados nesta quarta-feira a críticas ao governo Bolsonaro e manifestações de partidos e sindicatos, causaram menos impacto e a posição do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que em nota oficial "desautorizou" pais, alunos e professores a protestar contra suas políticas.

Ao atirar contra aqueles que deveria apaziguar, Weintraub coloca mais lenha na fogueira que mais arde desde o início do governo Bolsonaro. Mantém a crise estacionada na frente da sua porta. E jogou contra si o Ministério Público, que lhe deu uma intimação de dez dias para retirar uma nota oficial do MEC, divulgada na quinta-feira, dia 30, na qual o órgão diz que pais, professores responsáveis pelos alunos não poderiam divulgar informações sobre as manifestações, ocorridas em 24 estados da Federação.

No trimestre que terminou em abril, o Brasil teve em média cerca de 13,2 milhões de desempregados, 4,4% mais que no trimestre anterior, segundo o IBGE. A população subutilizada, que inclui pessoas subempregadas ou que desistiram de procurar emprego formal, foi estimada em 28,4 milhões de pessoas - recorde da série histórica iniciada em 2012, 3,9% mais que no trimestre anterior (27,3 milhões de pessoas) e 3,7% acima do trimestre de 2018 (27,4 milhões de pessoas).

O aumento do bico - o trabalho informal - explica uma relativa estabilidade na taxa de desemprego, que ficou em 12,5%, em média, no trimestre que acabou em abril. O índice subiu meio ponto em relação ao trimestre anterior, de novembro de 2018 a janeiro de 2019, quando ficou em 12%, e foi um pouco menor que o mesmo período do ano passado, quando estava em 12,9%. 

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), decidiu segurar a votação da Medida Provisória do Desmatamento, patrocinada pela bancada ruralista e aprovada na Câmara, mas que cairá se não for aprovada também pelos senadores até a segunda-feira, dia 3. Alcolumbre alega que houve pouco tempo para discuti-la.

Ocorre que o presidente Jair Bolsonaro tem sido nos bastidores o maior apoiador da MP, que foi aporvda e enviada ao Congresso ainda pelo ex-presidente Michel Temer. Na quarta-feira, de acordo com uma reportagem da revista Piauí, telefonou a Alcolumbre para convencê-lo a aprovar a MP naquele mesmo dia. E avisou que, caso ela caia, pretende reeditá-la.

A Medida Provisória da  Nova Previdência abre a possibilidade de privatização do sistema previdenciário, o que pode resultar na transferência dos recursos dos bancos estatais para os bancos privados. Hoje, estes só podem criar fundos de pensão e oferecer a chamada "previdência privada" como renda complementar à oficial.

Essa é uma das questões que devem ser debatidas pelos deputados e que podem dificultar a rápida e integral aprovação da MP, como deseja o governo.O projeto encontra resistência até mesmo dentro do partido do presidente Jair Bolsonaro. Cinco deputados do PSL, incluindo o presidente da legenda, Luciano Bivar (PE), assinaram um projeto alternativo do PL (ex-PR) para a reforma, substitutivo ao do ministro da Economia, Paulo Guedes.

Guedes é hoje não somente o principal defensor como o maior interessado na Nova Previdência. O BTG Pactual, do qual é acionista licenciado, é um dos cinco bancos privados que administram as aposentadorias no Chile, onde foi adotado o sistema de capitalização que ele propõe também ao Brasil. Em entrevista a Veja, publicação hoje também sob controle do BTG, Guedes chegou a afirmar que pediria demissão do cargo e que não teria mais o que fazer no governo caso a MP da Previdência fosse desfigurada.

Para a retomada dos investimentos, principal motor da recuperação econômica, é preciso tranquilidade, sem a qual o setor privado não assume riscos. E a falta de tranquilidade de um governo movido pelo confronto começa a produzir seu efeito. De acordo com o IBGE, o Produto Interno Bruto, que já vinha apontando um crescimento econômico cada vez menor, apresentou resultado negativo: queda de 0,2% no primeiro trimestre do ano, em relação ao trimestre anterior. 

A explicação para a queda é a intranquilidade reinante. O governo não conseguiu ainda aprovar as reformas pretendidas no Congresso e gera uma crise interna por dia, movido pelo Twitter do presidente Jair Bolsonaro e sua equipe de tuiteiros incendiários, espalhando o receio junto aos investidores.

O resultado negativo do primeiro trimestre foi puxado em grande parte pela retração nos investimentos. A formação bruta de capital fixo, uma medida de investimentos, caiu 1,7%. As exportações também recuaram 1,9% no trimestre. Com isso, a economia caiu, mesmo tendo sido registrado um aumento no consumo das famílias (0,3%), do governo (0,4%) e das importações (0,5%).  

Estudantes em todo o país retomaram nesta quinta-feira as manifestações contra o congelamento das verbas na Educação. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou que há "coação" por parte de professores pela participação nos atos e pediu reforço da Força Nacional ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, para proteger a sede do Ministério, em Brasília. Foi atendido.

O ex-presidente Fernando Collor, que renunciou ao cargo para não ser atirado fora em um processo de impeachment por corrupção, deveria ser, entre todos os políticos do Brasil, ao menos um que aprendeu no couro a lição. Mas não é o que acontece. O tempo passou, e Collor não mudou. Agora senador, está de novo envolvido com velhas práticas da política brasileira, o que, no seu caso, beira a desfaçatez.

Quem acha que o Congresso virou o mocinho da história depois que começou a barrar exageros do presidente Jair Bolsonaro, deve prestar atenção na mais recente manobra dos parlamentares, que vai jogar por terra anos de esforços no sentido deproteger o meio ambiente no Brasil, para favorecer interesses particulares -  em especial o dos deputados da bancada ruralista.

Pois os deputados pegaram uma medida provisória editada ainda pelo ex-presidente Michel Temer, que tinham outra finalidade, e nesta quarta-feira aprovaram um texto desfigurado que elimina indenizações, tira a responsabilidade pela recomposição de matas e outras compensações e afrouxa o controle sobre o avanço predatório das florestas brasileiras.