19 Set 2019

Presidente, índios e madeireiros recolocam o Brasil no Século XVI

  Seg, 29-Jul-2019
Garimpeiros no Pará: retirados Garimpeiros no Pará: retirados

Em um governo cujo discurso é o de favorecer a mineração e o garimpo em terras indígenas, o presidente Jair Bolsonaro viu acender o pavio dos conflitos entre indígenas e madeireiros na Amazônia, que já deixou uma vítima e a impressão de que o Brasil retornou a disputas do Século XVI. 

A morte no Amapá do cacique Emura, líder waiãpi, foi estopim para o presidente vir em defesa das próprias ideias. "Não tem nenhum indício forte que esse índio foi assassinado lá", disse Bolsonaro, antecipando a investigação com suas conclusões. "Chegaram várias possibilidades, a Polícia Federal está lá, quem nós pudermos mandar nós já mandamos. Buscarei desvendar o caso e mostrar a verdade sobre isso aí."

Já o ministro da Justiça, Sérgio Moro, interveio para assegurar que as circunstâncias da morte do cacique "serão devida e completamente apuradas pela Polícia Federal". "Lamenta-se, desde o logo, o ocorrido", disse, pelo Twitter.

Será mesmo difícil para Bolsonaro fugir da realidade. Depois da invasão por garimpeiros da reserva no Amapá, durante a qual Emyra foi esfaqueado, foi a vez dos mundurucus fazerem uma expedição a pé de cerca de 100 km para expulsar madeireiros e palmiteiros da Terra Indígena Sawré Muybu, no sudoeste do Pará.

Segundo os índios comunicaram à Funai, eles encontraram madeireiros na reserva e lhes deram três dias de prazo para sair.

“Ficamos muito revoltados por ver as nossas árvores derrubadas e as nossas castanheiras como tora de madeira em cima de um caminhão", afirmaram, em comunicado. "E sabemos que, quando retiram madeira, vão querer transformar nossa terra em um grande pasto para criar gado.”

Segundo os índios, eles estavam "armados com nossos cânticos, nossa pintura, nossas flechas e a sabedoria dos nossos antepassados." Sob pressão, os madeireiros já teriam retirado 11 máquinas pesadas, 2 caminhões, 1 quadriciclo, 1 balsa e 8 motos, todos sem placa.

"Na retomada, andamos 26 km vigiando os ramais [estradas] que os madeireiros fizeram no nosso território e bebendo água suja do rio Jamanxim, que está poluída pelo garimpo”, disseram os mundurucus.

Áreas riquíssimas

O presidente não está muito preocupado com a questão da preservação ambiental. “Usam o índio como massa de manobra, para demarcar cada vez mais terras, dizer que estão sendo maltratados", afirmou.

O presidente acredita que as terras indígenas demarcadas no Brasil são “riquíssimas” - e, portanto, devem ser exploradas. Afirmou ainda que Organizações Não Governamentais estrangeiras são contra a exploração de garimpo porque querem que os índios continuem “presos num zoológico animal” e “ter para si a soberania da Amazônia”.

Todos querem o progresso, mas ele não serve de justificativa para a invasão ilegal de terras demarcadas, o assassinato e a ação de madeireiros ilegais, sem nenhuma preocupação com a compensação ambiental, que agem como os mesmos predadores da era da colonização, só que com máquinas.

Bolsonaro, porém, prefere fazer seu discurso ideológico a resolver a questão do desenvolvimento sustentável e da preservação ambiental de forma equilibrada. "Esses territórios que estão nas mãos dos índios, mais de 90% nem sabem o que tem lá e mais cedo ou mais tarde vão se transformar em outros países", disse. "Está na cara que isso vai acontecer, a terra é riquíssima. Por que não legalizaram indígena em cima de terra pobre? Não existe."

Ao mesmo tempo em que defende o alinhamento com os interesses dos Estados Unidos, o presidente é hoje o principal arauto do apocalipse estrangeiro. "Há um interesse enorme de outros países de ganhar, de ter para si a soberania da Amazônia”, afirma.

Para ele, são forças ocultas as que teriam agido na demarcação da terra indígena, inspiradas no entreguismo. "Qual poder eles [os índios] têm para demarcar uma terra deste tamanho?" - pergunta. "[É] poder de fora, será que não conseguem enxergar isso? São milhares de ONG’s na Amazônia.”

Morte

No último final de semana, os Waiãpi denunciaram a invasão de 15 garimpeiros e Emyra foi morto, mas não houve testemunhas. Seu corpo só foi encontrado na manhã de terça-feira.

Segundo seu relato, os invasores estavam armados e ocuparam as imediações da aldeia Yvytotõ. Os moradores tiveram que refugiar-se na aldeia vizinha de Mariry. Os índios estariam sendo ameaçados. Mas a ameaça maior parece vir do grande cacique branco de Brasília.