28 Nov 2021

São 18:50 e o velho trem com ar soviético parte da plataforma 2 da Kasanskiy Voksal, com parada 11 horas depois em Kazan, antes de seguir por mais um dia e meio a Barnaul, numa viagem transcontinental.

Para lá rumam os brasileiros, vindos de vários lugares, carregando suas esperanças.

A foto de Wallace Rocha, garoto de doze anos de Vila Cruzeiro, no Rio, com o nome de Phillipe Coutinho costurado nas costas, circulou pela internet nesta quarta-feira, comoveu os jogadores da própria seleção e mostrou que o brasileiro começa a se reanimar, depois da queda de ânimos e espíritos que tomou conta do país depois dos 7 a 1 na última Copa e a crise geral que tirou esperanças do horizonte. O time, em campo, mostrou que também recuperou energia, com uma vitória categórica de 2 a 0 sobre a Sérvia, que deu o primeiro lugar num grupo que se tornara complicado. E ganhou corpo para enfrentar o México na próxima segunda-feira, pelas oitavas-de final.

Levantamento na zona oeste do Rio de Janeiro, considerada um laboratório das primeiras operações da intervenção federal na segurança da cidade, mostra que roubos, furtos, mortes violentas e apreensões voltaram a crescer depois da saída das Forças Armadas. Os dados, somados a operações desastradas, como a que resultou na morte do estudante Marcos Vinícius da Silva, 14 anos, atingido por uma bala na comunidade da Vila Pinheiro, Complexo da Maré, mostram que o modelo da intervenção ainda está longe de obter sucesso. No entanto, ao menos mudou um pouco a situação anterior, em que o Estado deixava o território entregue passivamente ao crime organizado. 

Quando a bola passou por baixo das pernas do goleiro Nava, em chute de bico na pequena área de Philippe Coutinho, ouviu-se nas ruas, nos bares, nas casas de todas as cidades do Brasil um grito explosivo e exultante como há muito não acontecia  na combalida vida nacional. Depois de 90 minutos sofridos, chegava a vitória dramática, que faz a seleção brasileira depender apenas de si mesma para classificar-se às oitavas de final da Copa do Mundo da Rússia. Quando Neymar marcou o segundo gol, já nos acréscimos, e terminou a partida ajoelhado, chorando, restou a sensação de alívio e a certeza de que a dramaticidade da vitória, suada, copeira, na raça, era o que a equipe precisava para seguir em frente com mais confiança - e os brasileiros, que começaram a sair na rua de amarelo, no metrô, nos ônibus, nas ruas, nos escritórios, deixando para trás o ceticismo geral, também.

O Brasil empatou com a Suíça no primeiro jogo da Copa em 1 a 1. Um pouco decepcionante, para quem se acostumou a ver as vitórias da era Tite.

Nem tanto, para quem assistiu a Argentina empatar com a Islândia pelo mesmo placar, e a Alemanha perder do México, por 1 a 0. Tem explicação.

Existe um problema ainda maior que a pobreza: a pobreza com a falta de perspectivas, isto é, de condições para melhorar de vida. Um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostra a dura realidade: entre 30 países estudados, o Brasil é o segundo pior em mobilidade social, isto é, na capacidade de fazer a população melhorar de vida, por meio da educação e da renda. Na classificação pelo índice de mobilidade, o país empata com a África do Sul e só é melhor que a Colômbia.

Com uma festa de 30 minutos e uma goleada de 5 a 0 da seleção da casa sobre a Arábia Saudita no jogo inaugural, começou nesta quinta-feira a Copa do Mundo de futebol, maior espetáculo da Terra, em dinheiro, audiência e expectativas. Mais que o desempenho esportivo, a Copa representa algo mais para seus participantes, que projetam no futebol sua personalidade, seu trabalho e o orgulho nacional. Especialmente o Brasil, humilhado depois da performance na Copa passada, em seu próprio território, e tomado na sequência por uma crise política, econômica e ética deixada pela farra na administração pública do país. Para os brasileiros, depois dessa terrível ressaca, a Copa da Rússia é um teste para saber se será possível dar a volta por cima - a começar pela recuperação do nosso amor próprio.

Nenhum brasileiro precisa de estatística para saber que a violência tem batido recordes, mas elas existem. A publicação do Atlas da Violência pelo Ipea e o Fórum Brasileiro de segurança Púca, com dados do Ministério da Saúde, mostra que o índice de assassinatos no Brasil nunca foi tão grande: 62,5 mil mortes em 2016, 30,3 casos para cada grupo de 100 mil, índice 30 vezes mais que o europeu. O pior é essa batalha cotidiana nao tem à frente um bom plano nem um general, e a falta de soluções concretas de curto, médio e longo prazo se reflete no discurso dos candidatos a presidente.

Após a reforma trabalhista, aprovada em novembro passado, os sindicatos estão encolhendo, como mostra um levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego. Com o fim da contribuição sindical cobrada na folha das empresas, que contrariava o princípio constitucional do direito à livre associação,  os sindicatos tiveram uma queda de 88% em sua arrecadação quatro primeiros meses do ano. E surge a questão de como os sindicatos poderão sobreviver. O protesto dos caminhoneiros, que correu longe de entidades representativas e obteve o atendimento de todas as suas reivindicações, mostra uma nova era na organização corporativista. Em vez das associações loteadas politicamente, se qiserem retomar o seu espaço, os sindicatos terão de mostrar serviço, em um novo modelo, capaz de atrair trabalhadores voluntariamente.

A Polícia federal, numa operação denominada Efeito Dominó, prendeu uma quadrilha de doleiros que trabalhava para as operações fraudulentas investigadas pela Lava Jato. Era encabeçada pelo "embaixador do tráfico", Luiz Carlos Rocha, o "Cabeça Branca", considerado chefe da organização, preso desde junho do ano passado.