15 Nov 2019

A prisão de Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, na sexta-feira passada, mostra que as investigações da Polícia Federal agora miram o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o senador José Serra. Uma delação de Preto completaria a ligação entre os 110 milhões de reais encontrados em uma conta de Preto na Suíça com a operação da propina entre as empreiteiras e a Dersa para beneficiar o PSDB entre 2009 e 2012, nas gestões de Alckmin e depois Serra. Com isso a Lava Jato, que na semana anterior já havia preso para averiguações colaboradores diretos do presidente Michel Temer pelo caso Rodrimar, vai deixando de focar o PT para enfrentar verdadeiramente a corrupção sistêmica na política brasileira.

Com os 6 votos a 5 contra o habeaus corpus preventivo pedido pela sua defesa, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva está na iminência de ser preso, mas o resultado não tira o país do clima de suspense em torno da sua condenação por corrupção. Mesmo os ministros do Supremo Tribunal Federal que votaram contra o habeas corpus de Lula se mostraram dispostos a reabrir a discussão em torno da decisão tomada em 2016, de permitir a prisão após o julgamento em segunda instância - caso hoje do próprio Lula e outros réus da Lava Jato, como o ex-deputado Eduardo Cunha, na cadeia desde 19 de outubro de 2016.

Em meio a um ato cívico que reuniu na noite de terça-feira milhares de pessoas nas principais capitais do país, em manifestação pela prisão do ex-presidente Lula, que apela ao Supremo Tribunal Federal com um pedido de habeas corpus e o fim da prisão em segunda instância, sobressaiu o simples tuíte de um cidadão: o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército brasileiro. No tuíte, Villas Bôas manda uma mensagem que serve para todos: Lula, o STF e até mesmo seu chefe em última instância, o presidente Michel Temer.  

Às vésperas da votação pelo Supremo Tribunal Federal da prisão automatica a partir da segunda instância, formou-se uma frente em favor da medida, aprovada pelo tribunal em 2016 para agilizar o Judiciário, tão criticado por sua morosidade e com mais de 200 mil presos sem sequer passar por julgamento nos presídios do país. 

A seleção brasileira venceu a da Alemanha por 1 a 0, em Berlim, no teste mais desejado pelo técnico brasileiro Tite. Não apenas para provar a equipe, que se mostrou mais uma vez sólida, diante do primeiro adversário disposto a pressioná-la sem medo. Mais que tudo, Tite deixa para trás o trauma dos 7 a 1 na última Copa, em que o fracasso do futebol se somaria ao fim de todas as outras ilusões criadas para a festança. "Não tem fantasminha", disse ele, na entrevista coletiva após a partida.

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o juiz Sérgio Moro mostrou-se cuidadoso com relação ao Supremo Tribunal Federal, que concedeu uma liminar ao ex-presidente Lula, para não ser preso até julgamento de um habeas corpus impetrado por seus advogados, previsto no dia 4.

Um recente levantamento do Infopen, Sistema Integrado de Informações Penitenciárias, mostra que dos 726 mil presos no Brasil, a terceira maior população carcerária do mundo, cerca de 292 mil, ou 40%, não foram condenados - e nem sequer julgados. O Supremo Tribunal Federal, porém, ainda tem dúvidas sobre se o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva pode ir ou não para a cadeia. A reunião de ontem do tribunal, que concedeu uma liminar para manter Lula solto até segunda ordem do próprio STF, deixa claro que o Brasil é o país da arbitrariedade. "O ex-presidente Lula tem que ter o mesmo tratamento digno e respeitoso pela Justiça brasileira que deve ser dado a todo e qualquer cidadão", disse a sua presidente, Cármen Lúcia, nesta sexta-feira, em entrevista à rádio Jovem Pan. "Ninguém pode ser considerado diferente [...] seria a quebra da ideia de Justiça e a quebra da ideia de igualdade. E essa é uma grande conquista do Brasil."

Se recebesse o mesmo tratamento dos outros brasileiros, a verdade é que Lula estaria na cadeia bem antes de ser julgado e condenado em primeira e segunda instâncias.

Christopher Wylie, cientista da computação canadense de 28 anos, revelou aos jornais The Guardian e The New York Times como extraiu do Facebook  perfis detalhados de 50 milhões de pessoas, lançando uma crise não apenas para a empresa como para o sistema político, que se vê sujeito à manipulação de dados supostamente privados para uso em campanhas eleitorais, a exemplo do que aconteceu na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Neste dia 17 de março de 2014, a Operação Lava Jato completou quatro anos, desde que a Polícia Federal cumpriu 81 mandados de busca e apreensão em um posto de gasolina no Distrito Federal. De lá para cá, a operação computa mais de 100 denúncias, 220 condenações, 260 conduções coercitivas, 168 prisões preventivas, 179 acordos de colaboração premiada e R$ 11,5 bilhões previstos em devoluções aos cofres públicos.

Na noite de quinta-feira, o que não se via desde Dilma Rousseff aconteceu de novo: milhares de pessoas voltaram às ruas em protesto, dessa vez pela morte de Marielle Franco, vereadora do PSOL, assassinada com quatro tiros na cabeça na noite quarta, junto com o motorista Anderson Gomes, quando passavam no Estácio, zona norte do Rio. Liderança surgida na favela da Maré, Marielle era relatora da comissão de fiscalização da intervenção federal na segurança pública do Rio e não apenas se opunha à ação do governo federal como abusos e crimes da polícia contra cidadãos nas favelas do Rio - dias antes denunciara execuções do 41o. Batalhão da PM, em Acari.

Dessa forma, graças a uma ação planejada,  que criou um mártir popular e colocou a população contra as autoridades constituídas, o presidente Michel Temer vê cada vez mais longe o prestígio que pretendia angariar com a intervenção - e vê instalada uma crise de resultados imprevisíveis.