25 Mai 2019

Os tempos negros vêm da ausência do Estado

Por   Qui, 14-Mar-2019
Guilherme no Facebook: violência dentro do cotidiano Guilherme no Facebook: violência dentro do cotidiano

O bárbaro massacre de estudantes e funcionários da escola Raul Brasil, em Suzano, levantou uma onda de comoção em todo o país. O massacre se junta à  sensação de disseminação da violência no cotidiano, espalhada em todos os campos da vida nacional.

A violência está por perto no adolescente que entra na escola para matar colegas. Na prisão de policiais acusados de assassinar a vereadora Marielle Franco, a bordo de milícias que tinham parentes empregados no gabinete do filho do presidente - sendo que o atirador morava no mesmo condomínio que ele.

Não se pode dizer que há envolvimento do presidente e sua família com a milícia e o crime, muito menos que ele é responsável pelo que aconteceu em Suzano. Porém, o chefe de governo representa o Estado. Está claro que há uma responsabilidade do Estado em tudo o que está acontecendo. E que não há coincidências.

A violência se expande, de forma latente ou ostensiva. Está na imagem de Guilherme, o estudante suicida, com a arma na mão ou o dedo médio em riste, que ganha outro peso depois da sua ação. Está também na presença das milícias, no enraizamento do crime organizado na sociedade, incluindo o próprio poder público. E está, claro, no crime nas ruas, tanto quanto no ódio fatricida, hoje insuflado pelos movimentos ideológicos.

A falência do Estado brasileiro, que deixou de prover segurança, educação de qualidade e emprego, está por trás destes tempos negros que atravessamos. Mais que a responsabilidade desviante de um indivíduo, é ela que cria uma sociedade onde o adolescente não tem perspectivas de trabalho e de vida.

Para o estudante mascarado, a saída é o suicídio - a renúncia a um mundo onde não há lugar para ele. E ele decide morrer, não sem antes levar consigo mais gente. É a sua vingança contra o sistema que se fechou à sua frente.

Tragédias como a de Suzano lembram que a falha é do Estado, quando oferece ao cidadão somente a violência e o crime como escape. O Estado deve entregar segurança, mas, com o discurso da liberação de armas, joga a responsabilidade pela defesa do cidadão para o próprio cidadão. Abdica de sua função e transmite a ideia de que se salva quem puder.

Facilitar o registro da arma é apenas adaptar a lei à realidade atual. Não é verdade que o Brasil seja um país desarmado. Está aqui a sexta maior quantidade de armas do mundo em poder de civis. De acordo com o Small Arms Survey, entidade sediada em Genebra, na Suíça, são 17,5 milhões de armas nas mãos da população brasileira. A maior parte disso, cerca de 9,5 milhões, são armas não registradas, por conta do custo e da dificuldade burocrática. O Brasil é um país armado de forma ilegal. O problema, portanto, não é armar a população. É como desarmá-la, mudando a situação.

Além da segurança, o Estado brasileiro falha na entrega da educação. O massacre dentro de um escola é duplamente significativo porque a violência explode justamente no lugar onde devia haver esperança de uma vida melhor. Pela educação, o indíviduo obtém o meio para a promoção social. O que os alunos veem na escola hoje, porém, é uma muralha atrás da qual não existe nada. Viver ou morrer, então, passa a ser algo tão indiferente quanto no videogame.

Hoje, milhares de estudantes se formam em faculdade e ficam sem emprego, ou permanecem nos subempregos nos quais se sustentam depois de formados. A escola básica é fraca; a superior, mesmo privada, é de qualidade também baixa, e depois dela há somente o abismo. Porque, além da segurança e da educação, o Estado brasileiro vem falhando no terceiro tripé da esperança, que é o do desenvolvimento sustentável. 

O emprego é o único programa social verdadeiro. Sem crescimento econômico, a massa de brasileiros sem esperança continuará sem esperança. Mais gente entrará para o crime, que vai se organizando no vácuo da desorganização do próprio Estado, aproximando-se dele, até o ponto, literalmente, de uma alarmante vizinhança. 

Não há segurança assim. O Brasil não pode virar um país de pistoleiros, como nos filmes de Tarantino, apontando as amas, uns para os outros. É preciso começar o desarmamento, não pela presença da arma, mas pela retomada do princípio da autoridade e da iniciativa do poder público onde lhe cabe a responsabilidade.

O Estado tem de recuperar o espaço perdido, seja para o crime organizado, seja para a economia informal. O presidente Bolsonaro só tem a opção de acertar, começando pelo fim da corrupçã. Porque o preço, vonforme o julgamento da história, é essa guerra civil que hoje começa a nos rodear.