17 Out 2019

Os negócios do PM acusado de matar Marielle

  Seg, 16-Set-2019
Lessa: negócios em expansão Lessa: negócios em expansão

Um relatório da Coordenadoria de Segurança e Inteligência do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, usado para um pedido de transferência de penitenciária à Justiça do Rio, mostra o perfil do sargento da reserva da Polícia Militar Ronnie Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, e também do funcionamento da milícia na cidade.

Segundo esse relatório, Lessa seria um dos chefes de milícia na zona oeste carioca, possuía um bingo clandestino na Barra da Tijuca e procurava ampliar seu negócio de distribuição de água para áreas dominadas por traficantes de drogas.

Aposentado como sargento, ele foi preso em 12 de março, com o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, acusado de dirigir o carro usado no crime. Lessa negou em juízo ter participado do crime.

Na casa de Élcio, a Polícia Civil fez a maior apreensão de fuzis já registrada no Rio. Duas semanas depois da prisão, Lessa e Élcio foram transferidos para o presídio federal de Mossoró (RN). Em julho, ambos foram novamente transferidos, dessa vez para Porto Velho. A defesa de Lessa, porém, pediu que ao Supremo Tribunal Federal que ele retorne a um presídio do Rio.

Paramilitar

O relatório da polícia mostra Lessa como um dos chefes de um grupo paramilitar. Atuava nas favelas do Rio das Pedras e da Gardênia Azul, na zona oeste.

"O grupo liderado por Ronnie teria vínculo com contraventores que exploram máquinas caça-níquel, além de outras organizações, a exemplo de milícias e grupos de extermínio", afirma o relatório, levantado pela Folha de S. Paulo.

São citados outros quatro policiais militares da ativa que integrariam o grupo. "A organização criminosa da qual Ronnie Lessa faz parte é composta por indivíduos que praticam há anos diversos delitos", prossegue o relatório."Incluindo crimes dolosos contra a vida."

Na Rio das Pedras, o braço armado da milícia é conhecido como o "Escritório do Crime", matadores que serviriam sobretudo à máfia do jogo do bicho. Foi investigando esse grupo que a inteligência da polícia civil chegou a Lessa.

Em 25 de julho do ano passado, quatro meses após a morte de Marielle, ntegrantes do 31º Batalhão receberam a denúncia de que um restaurante na Barra da Tijuca era fachada de um bingo clandestino. Lá os policiais encontraram 80 máquinas caça-níquel e prendeu três funcionários e sete clientes, levados ao 16ª DP.

testemunhas apontaram Ronnie como um dos proprietários do bingo. Segundo o UOL, Lessa teria admitido a propriedade do estabelecimento e chegado a reclamar da apreensão das máquinas.

Lessa também teria uma distribuidora de água, em sociedade com um policial militar da ativa. "Um dos negócios mantidos seria a venda de água, comércio aparentemente legal que demonstra a forma de atuação de milícia na imposição do negócio frente ao conceito de livre concorrência", afirma o relatório.

Ele e o sócio estariam planejando entrar em áreas dominadas pelo tráfico de drogas - o Complexo do Lins e Mandela, na zona norte, e a região da Lapa, no centro, além da Cidade de Deus, considerada território do Comando Vermelho.

Ainda que não fique comprovada a ligação de Lessa com a morte de Marielle, seus negócios servem para mostrar bem o funcionamento da milícia no Rio. ganhava R$ 7 mil mensais como sargento da reserva, mas tinha um padrão de vida de quem ganha bem mais. Morava no mesmo condomínio da Barra da Tijuca que o presidente Jair Bolsonaro, onde as casas são avaliadas em mais de R$ 3 milhões. Comprou por R$ 100 mil uma lancha usada em um condomínio de Angra dos Reis (RJ), onde comprou um lote por R$ 600 mil, segundo o UOL.