28 Nov 2021

O duro retrato da violência

  Ter, 21-Nov-2017

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, organização privada sem fins lucrativos, anunciou no final de novembro os dados de seu anuário sobre segurança, com dados relativos a 2016, que apontam um cenário assombroso em todo o Brasil - pelo que ele tem de pior. Aparece o cenário de uma verdadeira guerra civil, fruto da crise econômica e sobretudo da paralisia do Estado, que refletem a realidade bem conhecida: ser brasileiro hoje é relativamente tão perigoso quanto no tempo em que aqui viviam os índios antropófagos.

 

De acordo com os dados do Fórum, em 2016 houve 61.619 assassinatos no Brasil, 3,6% mais que no ano anterior. Isso significa que 29,9 pessoas foram assassinadas, em média, em cada grupo de 100 mil cidadãos. No Brasil, sete pessoas são assassinadas a cada hora.

Os Estados onde o crime mais cresceu, em relação ao ano de 2015, foram Sergipe (64%), Rio Grande do Norte (56,9%) e Alagoas (55,9%). Somente em dois Estados, mais ricos e organizados, o índice caiu: São Paulo (-5,96%) e Minas Gerais (-0,41%). No Rio de Janeiro, onde o crime organizado reapareceu desafiadoramete, o crescimento do número de assassinatos foi de 24,34%.

Violência espalhada

"A violência se espalhou pelo país todo", afirma o diretor do Fórum, Renato Sérgio de Lima. Essa verdadeira guerra se refletiu também no número de mortes por policiais, que bateu seu recorde. No ano passado, 4.424 pessoas foram mortas por policiais, um crescimento de 27% em relação ao ano anterior.

Os Estados onde os policiais mais mataram foram o Amapá, com 7,5 mortes por 100 mil habitantes, e Rio de Janeiro, com 5,6. Deles, 99% são homens e 82% estão entre 12 e 29 anos. Uma fatia de 17% dos mortos têm entre 12 e 17 anos. Isso quer dizer que, entre cada cinco pessoas mortas pela polícia, uma é um menor de idade. E 76% deles são negros.

Os policiais também morreram mais: foram 437 mortes, 17% mais que em 2015. Os números consideram homicídios dentro e fora de serviço.

O relatório aponta o Rio sempre no alto da tabela em todos os indicadores, Um deles também chama a atenção. No ano passado, foram furtados no Brasil mais de meio milhão de veículos: 557 mil, ou 8% a mais que no ano anterior. O Rio de Janeiro vem em primeiro na estatística, com 58,5 mil roubos. Em São Paulo, houve 226 roubos de carro por dia, que colocaram o estado em sexto lugar na lista. A indústria do crime se instala no poder, e prospera.

Troca de tiros

Enquanto isso, as autoridades trocam tiros inócuos. O ministro da Justiça, Torquato Jardim, disse em novembro que conversou com o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, e concluiu que o crime no Estado não tem solução - enquanto ele governar.

Segundo Jardim, o governador não está no controle nem mesmo da corporação da Polícia Militar. O ministro afirmou ainda, segundo coluna do jornalista Josias de Souza, do Uol, que os comandantes da PM no Rio estão controlando o tráfico e dividindo o mercado de acordo com a região sob seu comando. "Os batalhões são sócios de crime organizado no Rio", afirmou. Isso decorreria do "acerto de deputado estadua com crime organizado", disse Torquato.

Para ele, o assassinato do tenente-coronel Luiz Gustavo Teixeira, que comandava o 3º Batalhão da PM carioca, no bairro do Méier, não foi um mero assalto. E sim um acerto de contas, uma vez que o carro onde se encontrava Teixeira foi metralhado.

"O que está acontecendo hoje é que a milícia está tomando conta do tráfico", disse ele. E o crime organizado estaria deixando de se tornar vertical, a partir de um chefe de quadrilha, para se tornar horizontal, com envolvimento com a polícia de cada região. "A virada da curva ficará para 2019, com outro presidente e outro governador", acrescentou. "Com o atual poverno do Rio não será possível [...] Não tem comando."

"O governo do Rio e o comando da Polícia Militar não negociam com criminosos", rebateu Pezão. Além da discussão, aguarda-se pelas mudanças neste e em todos os governos, que a população sitiada não pode esperar.