28 Nov 2021

No pico da epidemia, Brasil parte para tudo ou nada

  Ter, 02-Jun-2020
Bolsonaro galopa: jornada camicase Bolsonaro galopa: jornada camicase

Não há nenhum indício de que o Brasil esteja saindo do pico pandêmico, mas o país entrou em acordo tácito para encerrar a experiência de semi-isolamento, volta aos poucos ao trabalho, com anuência da flexibilização em estados como São Paulo, e prepara-se para encarar o primeiro problema criado no vácuo deixado nas cidades: a tomada das ruas pelos militantes do presidente Jair Bolsonaro, clamando por uma intervenção militar. Em todo o país, depois de uma primeira manifestação em São Paulo, que juntou torcedores do Palmeiras e do Corinthians, rivais no esporte, e acabou com tiros de efeito moral da Polícia Militar, armam-se para o próximo domingo manifestações em todo o país contra o presidente, com vírus e tudo.

Movimentos suprapartidários passaram a convocar manifestações para o domingo, dia que o próprio presidente elegeu, durante a pandemia, para burlar o isolamento social e acidular manifestantes a irem para a rua apoiá-lo, no momento em que ele também tenta pressionar as instituições contra as investigalções que o cercam, a partir de seus filhos e de seu amigo e ex-assessor, Fabrício Queiroz, no Rio de Janeiro.

Lançado no sábado, dia 30, o movimento Estamos Juntos, com 224 mil assinaturas no final de semana, surfou a onda suprapartidária, em defesa da democracia, e em oposição a Bolsonaro. Une esforços com outros movimentos com a mesma finalidade, como o Somos 70%, referência à parcela da população que se estima estar em desacordo com as ideias do presidente. E o Basta! - iniciativa de um grupo de advogados em defesa da tolerância e da proteção às instituições democráticas e republicanas, em especial o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, contra quem Bolsonaro se coloca.

Clima de Dilma

Surge um clima semelhante ao que colocou o Brasil diante do governo de Dilma Rousseff, quando multidões contadas aos milhões foram às ruas nas grandes capitais pedir pelo impeachment da presidente. E um governo onde a corrupção, revelada pela operação Lava Jato, levantava a indignação popular.

Agora, são não apenas os negócios dos Bolsonaro que causam indignação, como a postura do presidente, que procura desestabilizar as instituições e apela às Forças Armadas para aplicar um golpe, de forma a controlar a instabilidade criada por ele mesmo.

O emprego de militares em cargos civis no governo, de forma a forçar políticas como a de combate ao isolamento promovida por governadores e prefeitos, transfere para as Forças Armadas a insatisfação crescente da população com o governo.

Enquanto Bolsonaro fazia de tudo para criar o clima de instabilidade, favorável para tomar poderes acima dos que lhe competem, jogando os militares contra a opopulação e vice-versa, o Brasil ganhou o status de epicentro da pandemia mundial do coronavírus, além de sofrer as consequências da paralisação econômica local e mundial.

Com sua postura de lesa-pátria, o presidente acabou assim atraindo para si um julgamento ainda pior que pelos golpes cometidos nos escaninhos da política no Rio de Janeiro. Ou mesmo por meio da conspiração com o uso de fake news, militantes virtuais e eleitores de extrema direita que demonstraram, durante a pandemia, seu desapreço pela civilidade. 

90 generais

Ao investir num suposto apoio militar, cujo sinal seriam os oficiais da reserva - e alguns da ativa - com que ele preencheu o governo, Bolsonaro eva o Brasil a um tudo ou nada, bem no meio da pandemia. Um sinal de que ninguém está disposto a segui-lo na sua jornada camicase é a demissão de dois ministros da saúde em plena pandemia, deixando como interino outro militar, o general Eduardo Pazuello.

Na semana passada, um grupo de 90 oficiais da reserva, empijamados com alta patente, publicou um manifesto em apoio ao general Augusto Heleno, que tem se pronunciado no twitter em favor de Bolsonaro. 

No final de semana, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, afirmou que "um ministro que é general da reserva, ou ainda está na ativa e vira ministro de um governo, não representa as Forças Armadas. Elas representam o Estado brasileiro."

A questão é saber se as Forças Armadas manterão a neutralidade com que trataram as manifestações ao tempo de Dilma. Dentro do seu papel, a cúpula militar não se pronuncia publicamente. Porém, tem seus intérpretes. "Não vejo nas Forças Armadas nenhum movimento de politização ou apoio político ao governo", diz Maia. "Elas têm papel de garantir o Estado, a nossa soberania, e assim deve ser de forma permanente."

A única manifestação das Forças Armadas com relação ao acontecimentos políticos durante a pandemia vieram também como lembrete de suas funções constitucionais, numa declaração com a assinatura do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, após um discurso dominical de Bolsonaro diante do quartel general das Forças Armadas, em Brasília, no qual declarou que elas estariam politicamente ao seu lado.

Fontes próximas aos ministros militares indicam insatisfação com essa associação, criada por Bolsonaro, que dali em diante passou a marcar as manifestações em favor de uma intervenção militar diante de quartéis do Exército.

Ao seu estilo, o presidente passou a negar o que faz, dizendo apenas prestigiar as manifestações, sem organizá-las. No domingo passado, saiu às ruas numa dessas manifestações de apoio a si mesmo, montado num cavalo da Polícia Militar. "Estarei onde o povo estiver", disse o presidente, na ocasião.

Veremos onde ele estará, então, no domingo que vem.