18 Out 2021

Brasil sai para a rua no pior da pandemia

Por   Ter, 09-Jun-2020
Ônibus lotado em São Paulo: saída na base do desespero Ônibus lotado em São Paulo: saída na base do desespero

O estado de São Paulo teve 5.450 novos casos de Covid e 334 mortes em 24 horas, recorde para o período de um dia, às vésperas de reabrir boa parte do comércio. Nesta segunda-feira, na capital paulista, o movimento nas ruas se aproximava do normal, mas a limitação do transporte imposto pelas autoridades deixava ônibus lotados, como mostram fotos de passageiros publicadas nas redes sociais. O mesmo ocorreu em lugares tão diferentes como Belo Horizonte, em Minas Gerais, e Palmas, no Tocantins.

No domingo, manifestantes pró e contra o presidente Jair Bolsonaro foram às ruas aos milhares, em manifestações provocadas pelo radicalismo político, numa onda de sandice coletiva. Dessa forma, a saída da pandemia, depois de uma quarentena flexível, além de não cortar a disseminação do vírus, mostra que São Paulo e o Brasil rumam para o descontrole da saúde pública, seguido, na economia, de um desarranjo ainda maior que o do resto do mundo.

Depois de ameaçar o lockdown total, pressionado pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo comércio, o governador João Dória aceitou a flexibilização das medidas de controle já existentes, no momento em que o Brasil é o país em que o Covid-19 mais cresce no mundo - e São Paulo é o carro-chefe.

Depois da reabertura em regime de meio período de parte do comércio, como revendedoras de veículos, a partir desta quarta-feira poderá voltar o comércio de rua e, na quinta-feira, dos shopping centers, conforme anúncio feito pela prefeitura na tarde desta terça-feira.

Lojas deverão oferecer álcool-gel aos clientes e respeitar a lotação máxima de 20% da capacidade de seu atendimento normal. Serão quatro horas de funcionamento, alegadamente para evitar uma sobrecarga no transporte público - que, no entanto, já está sobrecarregado pelo subdimensionamento da volta à atividade desde esta segunda-feira. Em São Paulo, como outras cidades do Brasil, os ônibus se tornaram uma armadilha pandêmica.

"Autocomplacência"

O Brasil segue o movimento da Rússia, que também começou nesta terça-feira a flexibilização do confinamento, mesmo sem ter feito um lockdown rigoroso como na maior parte da Europa e da Ásia. E contra a advertência da Organização Mundial da Saúde de que a pandemia está ainda se expandindo na Ásia e América Latina, onde com mais de 1 milhão de casos já fez mais de 67.000 mortos.

No mundo, já há mais de sete milhões de casos e 406.000 mortes, segundo a OMS. A América Latina e a Rússia, porém, são os únicos lugares onde a pandemia ainda cresce, de maneira que a OMS lançou um alerta para que as autoridades não cedam às pressões pela volta às atividades.

"A maior ameaça é a autocomplacência", afirma o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. De acordo com os dados da OMS, 75% dos novos casos registrados no domingo estão agora em 10 países - entre eles a Rússia e o Brasil.

O Brasil é o terceiro país do mundo em número de mortes, com 37.134, depois dos Estados Unidos (111.007) e do Reino Unido (40.597). Porém, desses três, é o único onde a pandemia ainda cresce.

Estouro da boiada

A pressão pela volta à vida normal, quando a pandemia se encontra no seu ponto mais alto, ainda em ritmo ascendente, mostra que o governo desperdiçou a oportunidade de fazer um lockdown total e, agora, vem sendo obrigado a desfazer o isolamento, sem ter atingido as metas por meio do isolamento voluntário.

Contou para isso a participação do presidente Bolsonaro, que desde o início pressionou governadores, fazendo campanha contra o isolamento, saindo às ruas, promovendo manifestações políticas e exortando a população a sair para a rua e voltar ao trabalho em nome da "liberdade de ir vir" e da "democracia".

Enquanto na Europa países que passaram pela superlotação de hospitais fizeram o lockdown total e retomam agora a atividade econômica sobre bases mais seguras, a flexibilização no Brasil está mais para o estouro da boiada. No Rio de Janeiro, onde a flexibilização também foi adotada, os especialistas não escondem o alarme.

“O Rio de Janeiro é a segunda capital do país com mais mortes por coronavírus, os casos também batem recordes negativos e os hospitais estão lotados, não era a hora de fazer essa reabertura, mesmo que aos poucos", afirmou o infectologista Douglas Macedo.

O baixo número de testes, os atrasos propositais na divulgação de informações pelo governo federal, as denúncias de corrupção na compra de equipamentos e a demora no socorro a empresas e desempregados forçados a retornar ao trabalho de qualquer maneira aumentam o grau de incerteza.

 O Brasil tem 707 mil casos oficialmente registrados de contaminação e é hoje o país onde ela mais cresce no mundo, assim como o número de mortos. Um modelo matemático criado em computador por uma equipe de pesquisadores do Centro Federal de Educação Tecnológica e da Universidade Federal de Juiz de Fora, adotado como parâmetro pela Agência Brasileira de Informação (Abin), estima que os casos positivos no Brasil, incluindo os assintomáticos ou não registrados, estejam entre 5,6 e 7 milhões de pessoas. 

Lockdown na Justiça

Contra a flexibilização promovida por prefeitos e governadores, ações cíveis têm procurado impôr o lockdown por meio judicial, diante da perspectiva de explosão pandêmica. Os prefeitos de São Bernardo e Diadema, na Grande São Paulo, determinaram a reabertura do comércio, mas ela foi suspensa por determinação judicial, a pedido do Ministério Público de São Paulo.

Outro pedido para a manutenção da quarentena foi protocolado na semana passada por associações de advogados atendendo ao parecer técnico de especialistas, para os quais o pico da pandemia no Brasil ainda acontecerá em junho e julho (Leia aqui).

A coerção vai de encontro ao movimento de empresários, políticos e boa parte da população que sofreram os efeitos da flexibilização pela metade. Esta, na prática, prejudicou a economia, sem eliminar o vírus, deixando o país no pior dos dois mundos - em crise e obrigado a retomar as atividades mesmo no pico do Covid-19.

Prefeitos de cidades do interior já vinham contrariando as normas do governo estadual. Estâncias turísticas passaram a autorizar a reabertura de hotéis, mesmo com a perspectiva de bancar custos elevados com baixa procura. 

Tanto Dória quanto o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, passaram a ver os números do Ibope apontarem para uma reprovação progressiva em relação às políticas públicas contra o coronavírus. O mesmo ocorreu com o presidente Bolsonaro.

Entre abril e maio, de acordo com o Ibope, a percentagem da população que considera inadequadas as medidas para conter a pandemia tanto por Covas quanto por Dória subiu de 20% e 21%, respectivamente, para 35% e 36%. A parcela que considerava as medidas adequadas caiu de 68% para 51% para ambos.

No caso de Bolsonaro, o índice de reprovação subiu de 57% dos entrevistados para 66%, enquanto a aprovação caiu igualmente de 26% para 21%.

Os números sugerem que uma parcela crescente da população acredita que ambos os lados erraram - no caso do governador e do prefeito, por não fazer um lockdown total, o que permitiu o Covid-19 se manter em alta; e, no caso de Bolsonaro, por sua postura desagregadora, refletida na saída de dois ministros da Saúde, ambos médicos, e na imposição de um militar como tampão no cargo.

O nível de ocupação nas UTIs durante o período de flexibilização tem se mantido estável em São Paulo  - no estado é de 68,6% e na Grande São Paulo de 74,1%. Há 4.481 internados em UTIs no estado e 8.073 em enfermarias, com 28.787 recuperados. A situação não é crítica, mas não permite otimismo. Em São Paulo, estado mais populoso, a pandemia tem se alastrado agora pelas cidades do interior, além das periferias das grandes cidades. Com a reabertura do comércio, a circulação de gente tende a se ampliar - e a contaminação, especialmente por meio das pessoas ainda assintomáticas da doença, mas já capazes de transmiti-la, pode se acelerar.

O saldo da pandemia  vai se mostrando consequência do próprio país, com uma população semi-abandonada, vítima da desordem política, resultados de lideranças que colocam interesses políticos e pessoais e suas ideologias à frente do serviço público. O mal do Brasil hoje não é o Covid. É a incivilidade: por parte de seus governantes e da população desgovernada, vítima dela mesma, por conta da sua pobreza e da falta de educação e espírito cívico para agir como Nação.