18 Out 2021

Brasil ruma para ser o campeão da contaminação

  Qui, 11-Jun-2020
Paulistanos na orla: falta civilidade e disciplina coletiva Paulistanos na orla: falta civilidade e disciplina coletiva

O sol abriu, o termômetro marcou 32 graus e, apesar do feriado ter sido antecipado, os paulistanos aproveitaram o pretexto do Corpus Christi nesta quinta-feira para ir à praia, congestionando as estradas para o litoral norte. Não se tratava, como alegam muitos, de gente que precisa sair à rua por necessidade, para trabalhar. A rua 25 de Março, tradicional pelo comércio popular na capital paulista, encontrava-se lotada de gente fazendo compras. A rua Teodoro Sampaio, de comércio de móveis, também. havia filas em shoping centers, com gente fazendo compras de Dia dos namorados. Não há lei que proíba tal movimentação, mas não é difícil entender porque o Brasil vai rumando para ser o campeão da contaminação pelo Covid-19, numa combinação de desgoverno político com irresponsabilidade civil e social.

Nesta mesma quinta-feira, o Brasil passou a marca dos 800 mil casos confirmados de Covid-19, com 100 mil novos casos em apenas três dias. Projeções matemáticas do  Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME) da Universidade de Washington, utilizadas pelo governo americano, indicam que, se nada mudar, no dia 29 de julho o país passará os Estados Unidos como o campeão da contaminação mundial de coronavírus, num planeta com mais de 200 nações infectadas.

Não se trata de mero azar. O naufrágio do controle da pandemia brasileira começa pelo poder público, incapaz de uma ação coordenada entre estados e governo federal, que desde o início pregou a desobediência às normas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde.

Enquanto os governadores e prefeitos deixaram de fazer o lockdown total, a única coisa que debelou a pandemia nos países onde ela se encontra bem resolvida, o presidente Jair Bolsonaro atuava no papel de que mais gosta: o de agente do caos.

Mais: com a demissão de dois ministros da Saúde, e a instalação de um militar na pasta, que concordou em atrasar boletins e flertou com a falsificação dos números, como se a mentira fosse diminuir o tamanho da incompetência das autoridades nacionais, o presidente entregou o país à própria sorte. Jogou para as autoridades locais e a própria população a responsabilidade sobre a crise de saúde e da economia.

Aí é que reside o problema maior. Além de mais recursos, os países europeus, assim como a China, possuem espírito cívico e mais disciplina coletiva. Esse é o material que falta ao brasileiro, que só forma uma Nação unida quando a seleção de futebol disputa a final da Copa do Mundo - e desaparece de imediato, se ela perde.

O resultado desse caráter não são apenas os 40.919 mortos contabilizados por conta do coronavírus desde o início da pandemia. É a certeza de que o Brasil fica para trás na escala da civilização, a mesma que é utilizada para se fazer investimentos, atrair turistas e medir o grau de desenvolvimento social de um país.

Em São Paulo, durante o feriadão, a marca dos óbitos chegava a 10.145 pessoas, com 162.520 infectados no estado. Na Grande São paulo, 77% dos leitos de UTI estão ocupados - uma situação ainda sob controle, mas quase no limite.

Na rodovia dos Tamoios, a Polícia Rodoviária instalou uma barreira para medir a temperatura dos turistas e orientá-los a ficar em casa. A maioria das pousadas estavam fechadas, assim como restaurantes, apesar da flexibilização promovida pelo governo estadual.

Isso, porém, não era problema. "Enquanto o empresariado legalizado vem cumprindo a quarentena à risca, muitos moradores vêm faturando com a locação de casas, e, consequentemente, atraindo turistas em plena pandemia", afirmou ao UOL o presidente do birô de turismo do Guarujá, Hugo Gallo.

Assim como fazem com os cachorros, os paulistas gostam de levar o vírus também para passear.