30 Mar 2020

A raiz de nossos males em "A Criação do Brasil"

  Seg, 20-Ago-2018
Guaracy: realismo histórico Guaracy: realismo histórico

Para aqueles que se perguntam por que o Brasil vive emperrado em velhos males, da miséria crônica à corrupção deslavada, acaba de chegar às livrarias uma obra chave, tão clara quanto por vezes implacável: "A Criação do Brasil - 1600-1700", do jornalista e cientista social Thales Guaracy, lançado pela editora Planeta.

O livro é sequência de "A Conquista do Brasil - 1500-1700", que trata da ocupação da costa brasileira, mas uma leitura não depende da outra. "A Criação do Brasil" avança pelo segundo século brasileiro, no qual Guaracy narra a ocupação colonialista continente adentro - um período da mais bárbara violência e de conflitos políticos e religiosos profundos. Deles, emerge a sociedade brasileira e, em particular, a nossa elite dirigente. Com isso, "A Criação do Brasil" levanta a história por vezes terrível da nossa formação - e a chave para mudarmos o presente.

Desconstruindo a história apresentada nos livros escolares, geralmente edulcorada e superficial, "A Criação do Brasil" desencava do cemitério histórico o fato de que durante seis décadas, a partir de 1580, o Brasil pertenceu à Espanha, assim como Portugal. Um período da história enterrado tanto por portugueses quanto espanhóis - os primeiros por terem se submetido à Espanha, os segundos por mais tarde terem perdido Portugal.

Com isso, Guaracy resgata o contexto, os fatos e os personagens do nascimento do Brasil. E reconstrói, com realismo por vezes chocante, o vértice fundamental da história do país, de Portugal, da Espanha e do mundo, onde as duas grandes potências marítimas reunidas formavam o maior império já visto na história da civilização.

Clique aqui para adquirir o livro.

Sem fronteiras

Contra a lei, a então jovem elite luso-brasileira, submetida à vida num lugar inóspito pela sanha do enriquecimento rápido, estendia seus braços para a além da fronteira administrativa com a colônia espanhola, a ponto de no início do século XVII haver mais portugueses que espanhóis em cidades da Nova Espanha, como Lima, Assunção e Buenos Aires.

O autor mostra ainda como os bandeirantes avançaram sobre território espanhol, numa guerra fratricida pela mão de obra indígena com os jesuítas, para quem o interesse de plantar o catolicismo no Novo Mundo também não conhecia fronteiras.

Revela ainda a associação da elite nordestina com os holandeses, invasores do Nordeste em desafio aos interesses imperialistas da Espanha, em troca de financiamento para impulsionar os engenhos da promissora indústria açucareira. A mesma elite que depois rebelou-se, quando chegou a hora de pagar as dívidas.

Num tempo em que Holanda e Portugal eram aliados na Europa na guerra de separação contra o espanhóis, foi um senhor de engenho enriquecido na corte de Maurício de Nassau que, endividado, expulsaria os antigos aliados da metade mais rica do território colonial, auxiliado pelos brasileiros do sul.

Casta dirigente

Por conta do jogo político europeu, em poucas décadas o Brasil, que passara da dominação portuguesa à espanhola, voltou a ser português, ao mesmo tempo em que parte do território colonial era dominado à força pelos holandeses. A partir daí, como em um romance, Guaracy vai puxando o fio do novelo por meio do qual a elite luso-brasileira aos poucos foi deixando sua identificação com as potências dominantes para adquirir motor próprio.

A partir da retomada do Brasil aos espanhóis e holandeses, consolidou-se uma elite local encastelada no poder, incentivada pela corte lisboeta, que lhe devia favores e distribuía riquezas, privilégios e a própria gerência das vilas, onde só podiam ser eleitos os chamados "homens bons" - grupo seleto e hereditário de senhores de terra.

Estes aprenderam a mimetizar-se com o poder da vez, sem identificar-se ao fim das contas com nenhum dos dominadores externos - o embrião da casta que se perpetua até hoje, num sistema feito para mantê-la no poder e perpetuar seus privilégios.

Estavam na origem dessa aristocracia nascente tanto os bandeirantes paulistas, como Raposo Tavares e Fernão Dias Pais Leme, como comerciantes portugueses perseguidos pela Inquisição nas principais cidades coloniais da Nova Espanha, onde o protecionismo nos negócios locais se travestia de preconceito religioso.

Espanhóis remanescentes no Brasil após a Restauração da coroa portuguesa também sofriam perseguições e ensaiaram o separatismo a partir de São Paulo. O fracasso do movimento obrigou muitos a mudar de lado e de sobrenome.
Entre os que tiveram de adaptar-se aos novos tempos, estava o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benavides, personagem tão esquecido quanto fundamental na história do Brasil.

Herdeiro da família de tradicionais administradores coloniais portugueses, foi ele - um espanhol nascido em Cádiz, que usava o nome da mãe espanhola, casado com uma criolla e proprietário de terras do Chile à Espanha - quem apoiou no Brasil a Restauração de Portugal. E não apenas recuperou para Dom João IV o Nordeste brasileiro como suas antigas colônias africanas, de onde vinham escravos negros para os engenhos do Novo Mundoo.

"Até os céus mentem"

Dentro desse contexto, "A Criação do Brasil" traz muitas histórias reveladoras do Brasil, como a passagem sobre Dom Fadrique de Toledo Osório, comandante da esquadra luso-espanhola que libertou Salvador dos holandeses.

Ao voltar para a Espanha, Felipe II lhe perguntou o que achara do mês que passara na Bahia, com sua gente faceira e o clima tropical, de manhãs claras e trovoadas à tarde. "No Brasil, até os céus mentem", respondeu o fidalgo ao monarca espanhol. A história se tornou proverbial na época, conforme relatado num sermão do padre Antônio Vieira, conforme observou Guaracy.

Ao exumar o espírito do passado, "A Criação do Brasil" desnuda até mesmo os heróis nacionais, mostrando-os como gente de carne e osso. Não escapam a esse olhar mais realista os símbolos do bandeirantismo, como Raposo Tavares, que se revela um assassino impiedoso, enterrado propositalmente pela história.

Mostra como os bandeirantes, misto da "ferocidade dos índios com a disciplina militar portuguesa", chegaram a criar campos de concentração com até 5 mil prisoneiros e deixavam um rastro de cadáveres pelo caminho até São Paulo, onde chegavam vivos apenas um em cada quatro índios escravizados.

Templários dos trópicos

Não menos terríveis eram os jesuítas, templários dos trópicos que, como revela a passagem do livro sobre a tomada de Sacramento, mandavam degolar pelos índios missioneiros os prisioneiros de guerra, tanto quanto enviavam os ricos comerciantes portugueses à fogueira nas cidades coloniais espanholas pelo crime de "judaísmo".

Aparece o lado negro mesmo dos personagens mais progressistas e clarividentes, como o padre Antônio Vieira. Célebre pelos seus Sermões, "um iluminista cem anos antes do Iluminismo", capaz de derrubar a Inquisição com sua influência sobre reis e papas, Guaracy mostra como ele também sentenciou os negros do Quilombo dos Palmares ao massacre.

Nesse século de formação do Brasil, deixaram sua marca heróis selvagens, como o tuxaua Nheçum, e gênios de muitos talentos, como Nassau, general implacável e administrador brilhante, com uma alma renascentista. Ou ainda o padre Antônio Ruyz Montoya, que em nome de Deus armou um exército de índios para enfrentar os caçadores de escravos no território das Missões espanholas e deter o avanço português.

Um rico painel humano, onde a cobiça, o drama e o acaso, elementos da ação individual, acabam por vezes definindo os rumos da História.

Vírus político

"A Criação do Brasil", em suma, mostra o caldeirão fervente de onde emergiu a nação brasileira. Em especial sua elite, organismo mutante, um vírus político e econômico, provado no exercício da sobrevivência, resistente a mudanças e com uma incrível capacidade de adaptação.

Aterradoramente revelador, o século XVII mostra-se, como diz o autor na introdução, a "raiz de nossos mais monstruosos males, como das nossas incomparáveis virtudes". Aquilo que parece nossa maldição é, de certa forma, também a nossa força - o impulso selvagem de conquista a qualquer preço, em uma terra que oferece infinitas possibilidades.

Da leitura, fica claro o caminho para resolver as nossas dificuldades e ter um país mais desenvolvido e justo. E a certeza de que no Brasil tudo é possível. Até mesmo a metamorfose de que precisamos: para outro tipo de civilização.