24 Abr 2019

A morte do músico Evaldo, num carro alvejado por militares

  Seg, 08-Abr-2019

O porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, afirmou na segunda-feira que o presidente Jair Bolsonaro "não comentou" o fuzilamento do carro de uma família em Guadalupe, na zona norte do Rio, no domingo, com mais de 80 tiros, por um grupo de militares. O músico Evaldo Rosa dos Santos, 46 anos, morreu.

Rêgo Barros afirmou no entanto que o presidente, normalmente atento a todos os pormenores até do carnaval, e que recentemente parabenizou a ROTA de São Paulo por desbaratar uma quadrilha de assalntantes a bancos em que morreram 11 bandidos, "confia na Justiça Militar, nos esclarecimentos que o Exército dará por meio do inquérito e espera que eventos de igual similitude não venham a ocorrer".

A viúva do música, a enfermeira Luciana Oliveira, disse que, após o carro da família ser crivado de balas, os militares da equipe deram risada, depois que ela os chamou de "assassinos".

A família ia para um chá de bebê na casa de uma amiga. "Estávamos cantando e escutamos um estilhaço", afirmou Luciana. "O sangue espirrou em mim.”

O cunhado de Evaldo, Leandro Rodrigues, afirma que o músico conseguiu salvar a família após ser atingido por um tiro nas costas. “Ele sentiu o tiro por trás e ainda conseguiu virar o carro, para salvar o David e a família, que estavam no banco de trás.”

Luciana e David escaparam do tiroteio, que continuou após um homem tentar socorrer Evaldo, segundo a enfermeira. Uma amiga da família também estava no veículo e ficou ilesa.

Dez militares envolvidos na morte do músico foram presos em flagrante. Segundo o Comando Militar do Leste, foi determinado o seu afastamento imediato por "inconsistência dos fatos reportados". Em nota, o Exército afirmara que os militares revidaram "injusta agressão" de criminosos. Eles foram encaminhados à Delegacia de Polícia Judiciária Militar para tomada de depoimentos.

Os envolvidos serão julgados pela Justiça Militar, segundo o chefe do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa (DGHPP), delegado Antônio Ricardo Nunes, conforme a lei sancionada pelo ex-presidente Michel Temer em 2017, que tirou da Justiça comum crimes cometidos por militares em serviço.

As regras estabelecidas pela lei valem para casos de homicídios dolosos (com a intenção de matar) e outros crimes dolosos contra a vida, como tentativa de homicídio, durante operações de paz e de garantia da lei e da ordem. E também durante o cumprimento de tarefas estabelecidas pelo presidente da República ou pelo ministro da Defesa e em ações que envolvam a segurança de instituições militares ou de missões militares, como é o caso da intervenção no Rio de Janeiro.